A Clínica Médica abrange uma vasta gama de condições essenciais para a prática médica e é um pilar fundamental na formação de qualquer profissional de saúde. Este artigo visa desmistificar e organizar os tópicos essenciais em clínica médica, focando em uma abordagem prática e otimizada para o aprendizado e a memorização, tal como exigido em provas e na rotina hospitalar. Abordaremos desde distúrbios acidobásicos e hidroeletrolíticos até infecções comuns e manejo de condições crônicas, sempre com foco nos pontos-chave e pegadinhas frequentemente cobradas.
Tópicos Essenciais em Clínica Médica: Visão Geral e Importância
A compreensão dos tópicos essenciais em clínica médica é crucial. Eles representam as bases para o diagnóstico e tratamento de diversas patologias, impactando diretamente a qualidade do cuidado ao paciente. Dominar esses conceitos não só otimiza o desempenho em avaliações, mas também prepara para os desafios da prática clínica.
Distúrbios Acidobásicos: Interpretação da Gasometria
Os distúrbios acidobásicos são frequentemente cobrados e exigem uma sequência lógica de interpretação da gasometria. A ordem é sagrada para o diagnóstico correto:
- pH: Avalie se há acidemia (<7,35) ou alcalemia (>7,45).
- Distúrbio Primário: Identifique se é metabólico (HCO₃⁻ no mesmo sentido do pH) ou respiratório (PaCO₂ no sentido contrário).
- Compensação Esperada: Calcule se a compensação é adequada para um distúrbio simples ou se indica um distúrbio misto. O corpo nunca supercompensa ou normaliza o pH sozinho. A regra de ouro da compensação afirma que se o pH 'passou do ponto' ou a compensação está fora da faixa, há um distúrbio misto.
- Ânion Gap (AG): Na acidose metabólica, calcule o AG = Na⁺ − (Cl⁻ + HCO₃⁻), normal 8–12 mEq/L. Lembre-se de corrigir o AG pela albumina: AG corrigido = AG + 2,5 × (4,0 − albumina g/dL).
Fórmulas de Compensação Essenciais:
- Acidose metabólica: PaCO₂ esperada = (1,5 × HCO₃⁻) + 8 (± 2) – Fórmula de Winter.
- Alcalose metabólica: PaCO₂ esperada = HCO₃⁻ + 15 (± 2).
Acidose Metabólica e Ânion Gap:
- AG ALTO: Acúmulo de ácido (cetoacidose, acidose lática, uremia, intoxicações).
- AG NORMAL (hiperclorêmica): Perda de HCO₃⁻ (diarreia, acidose tubular renal, acetazolamida).
A conduta para acidose de AG alto é tratar a causa. Bicarbonato exógeno é indicado apenas se pH < 7,1 ou pH < 7,2 com IRA/sepse. Já na acidose hiperclorêmica, a reposição de HCO₃⁻ é benéfica. Para alcalose metabólica, o cloro urinário (<25 mEq/L = cloro-sensível; alto = cloro-resistente) guia a reposição de volume (SF 0,9%) e potássio.
Infecção do Trato Urinário (ITU): Diagnóstico e Tratamento
A ITU é um dos tópicos essenciais em clínica médica de maior incidência. A Escherichia coli é o principal agente em 70-80% dos casos. É vital diferenciar os tipos de ITU:
- Cistite (ITU baixa): Disúria, polaciúria, urgência, sem febre/dor lombar. Diagnóstico clínico em mulher jovem não gestante. Tratamento empírico: nitrofurantoína 100 mg 6/6h por 5 dias ou fosfomicina 3 g dose única.
- Pielonefrite (ITU alta): Febre, calafrios, dor lombar/Giordano +. Diagnóstico clínico. Tratamento ambulatorial (estável): ciprofloxacino VO. Internar (vômitos, instabilidade, gestante): ceftriaxona 1 g EV/dia. Se houver cálculo obstrutivo ou abscesso, acionar urologia para desobstrução/drenagem.
- Bacteriúria Assintomática: Urocultura ≥10⁵ UFC/mL sem sintomas. NÃO tratar, exceto em gestantes ou antes de procedimento urológico invasivo com sangramento de mucosa.
- ITU de Repetição: 2 episódios em 6 meses OU 3 em 12 meses. Indicada profilaxia, muitas vezes pós-coital.
ITU Complicada e Resistência Bacteriana:
- Fatores de complicação: homem, gestante, alteração anatômica/funcional, cateter, diabetes, imunossupressão.
- ESBL+: resistente a cefalosporinas → carbapenêmico (meropenem, ertapenem).
- Pseudomonas: meropenem, cefepime, pip-tazo. Ceftriaxona NÃO cobre Pseudomonas.
Distúrbios do Potássio: Hipocalemia e Hipercalemia
O potássio sérico normal é 3,5–5,0 mEq/L. A gravidade é definida pelo par nível sérico + ECG.
Hipercalemia (K > 5,0–5,5):
- Grave: K ≥ 6,5 mEq/L OU K entre 5,5–6,4 com alteração de ECG (onda T apiculada, achatamento P, alargamento QRS).
- Conduta na grave: 1. Estabilizar membrana: Gluconato de cálcio 10% EV (não baixa K, protege o coração). 2. Deslocar K para dentro da célula: Insulina regular + glicose; β2-agonista inalatório. Bicarbonato só se pH < 7,1. 3. Eliminar K: Furosemida (se diurese), resina de troca (Sorcal®), diálise (se anúria/DRC refratário).
Hipocalemia (K < 3,5):
- Causas: Diuréticos (alça/tiazídico), vômitos/diarreia, insulina, β2-agonistas, penicilinas.
- ECG: Onda U, onda T achatada/invertida, infradesnível de ST, arritmias. Sempre checar magnésio (hipoMg perpetua hipoK).
- Conduta: Reposição VO (KCl xarope) na leve (3,0–3,5). Endovenosa na moderada-grave ou com sintomas: KCl diluído em SF 0,9% (NUNCA glicosado), máximo 40 mEq/L em periférica (até 60 em central), ≤ 10 mEq/h periférica. Repor magnésio se baixo.
Distúrbios do Sódio: Hiponatremia e Hipernatremia
O sódio sérico mede concentração de água livre. Normal: 135–145 mEq/L. Osmolaridade sérica normal: 275–295 mOsm/kg.
Hiponatremia (Na < 135):
- Sintoma neurológico grave (convulsão, rebaixamento): NaCl 3% 100 mL em bolus (repetir até 3x) IMEDIATO, meta subir 4–6 mEq/L na 1ª hora. Não ultrapassar 8 mEq/L em 24h (risco de mielinólise pontina).
- Assintomática: 1. Osmolaridade: Se hipotônica (<275 mOsm/kg), siga. Se isotônica (pseudo-hiponatremia) ou hipertônica (hiperglicemia/manitol), não dar NaCl 3%. 2. Volemia: Hipovolêmica (vômito/diarreia) → SF 0,9%. Euvolêmica (SIADH, potomania) → restrição hídrica. Hipervolêmica (IC, cirrose) → restrição hídrica + diurético de alça.
- SIADH: Hiponatremia hipotônica euvolêmica, osmolaridade urinária >100 mOsm/kg, sódio urinário >40 mEq/L. Causa comum: carbamazepina, pneumonia, doenças SNC. Tratamento: restrição hídrica.
Hipernatremia (Na > 145):
- Sempre hiperosmolar. Repor água livre. Máx 0,5 mEq/L/h (10–12 mEq/L em 24h) para evitar edema cerebral.
- Volemia: Hipovolêmica → SF 0,9% (restaurar volume), depois SG 5% ou NaCl 0,45%. Euvolêmica (Diabetes Insipidus) → SG 5% (DI central: desmopressina). Hipervolêmica → SG 5% + diurético tiazídico.
Diabetes Mellitus: Diagnóstico, Tratamento e Complicações
O Diabetes Mellitus é um dos tópicos essenciais em clínica médica mais cobrados. As diretrizes da SBD (2025) são a base.
Diagnóstico (não gestante):
- Jejum ≥ 126 mg/dL
- HbA1c ≥ 6,5%
- TOTG 2h ≥ 200 mg/dL
- Glicemia ao acaso ≥ 200 mg/dL + sintomas
- Assintomático exige 2 exames alterados.
Tratamento DM2 (não hospitalizado):
- Meta: HbA1c < 7%, jejum 80–130, pós-prandial < 180.
- Fluxograma: MEV sempre. Se alto risco CV/DRD/IC: iSGLT2 ou GLP-1 + metformina, independente da HbA1c. Sem alto risco: metformina + MEV. Se HbA1c > 9% sintomático: insulina (NPH bedtime 10 UI ou 0,1–0,2 UI/kg) mantendo metformina/sulfonilureia.
Hiperglicemia Hospitalar (> 140 mg/dL):
- Não diagnosticar DM agudo. Pedir HbA1c. Meta: 100–180 mg/dL.
- Suspender ADO na internação. Insulina de horário (basal-bolus) se ≥ 2 glicemias > 180 mg/dL/dia. Sliding scale isolado é proscrito.
Complicações Agudas:
- Cetoacidose Diabética (CAD): Hiperglicemia + cetose + acidose com AG aumentado. Tratamento: hidratação (SF 0,9%), potássio (se K⁺ < 3,3 adiar insulina), insulina IV contínua. Bicarbonato SÓ se pH < 6,9. Adicionar SG 5-10% quando glicemia ~200-250 mg/dL.
- Estado Hiperglicêmico Hiperosmolar (EHH): Glicemia > 600, osmolaridade > 320, sem cetose/acidose significativa.
- Hipoglicemia Nível 2 (< 54 mg/dL): Corrigir imediatamente com 15-20g de carboidrato rápido VO.
Complicações Crônicas: Rastreio de retinopatia (DM2 no diagnóstico), doença renal (albuminúria + TFG anual), neuropatia (monofilamento). Pé diabético: polimicrobiano (Gram+, Gram-, anaeróbios), ATB amplo + imagem + cirurgia. Risco CV: LDL < 70, estatina.
Diabetes Mellitus Gestacional (DMG):
- <20 sem: jejum 92–125 = DMG. ≥126 = DM prévio.
- 24–28 sem: TOTG 75g (jejum ≥92, 1h ≥180, 2h ≥153).
- Tratamento: MEV, se falha → insulina. Metas: jejum/pré-prandial <95, 1h pós <140, 2h pós <120.
Pneumonia Nosocomial (PAH) e Associada à Ventilação (PAV)
PAH: ≥48 horas após admissão. PAV: ≥48 horas após intubação. A flora muda para germes multirresistentes (Pseudomonas, MRSA).
Diagnóstico: Infiltrado novo/progressivo na RX de tórax + ≥2 critérios clínicos (febre, leucocitose, secreção purulenta, piora da troca gasosa). Iniciar ATB empírico IMEDIATAMENTE.
Fatores de Risco para MDR: ATB IV nos últimos 90 dias, choque séptico, SDRA, >5 dias de internação, UTI, pós-operatório, acamado, imunossupressão.
Tratamento Empírico: Cobrir Pseudomonas (Piperacilina-tazobactam, Cefepime, Meropenem) e MRSA (Vancomicina ou Linezolida se houver fator de risco). Meropenem + Amicacina é uma combinação clássica. Ertapenem NÃO cobre Pseudomonas. Daptomicina NÃO funciona no pulmão.
Profilaxia de Tromboembolismo Venoso (TEV)
A profilaxia de TEV é um tema essencial. Deambulação/mobilidade preservada = NÃO prescrever anticoagulante profilático. Stratificar o risco:
- Paciente Clínico: Escore de Pádua (≥4 = alto risco → farmacológica). <4 = baixo risco → deambulação.
- Paciente Cirúrgico: Escore de Caprini (0 = muito baixo, 1-2 = baixo, 3-4 = moderado, ≥5 = alto).
Profilaxia Farmacológica: Enoxaparina 40 mg SC 1x/dia (ou HNF 5.000 UI SC 8/8h). Contraindicada em sangramento ativo/alto risco (plaquetopenia, INR >1,5, pós-neurocirurgia).
Profilaxia Mecânica: Compressão pneumática intermitente (CPI). Indicada quando a farmacológica é contraindicada. É uma ponte, migrar para farmacológica quando o risco de sangramento ceder.
Insuficiência Renal Aguda (LRA) e Crônica (DRC)
A LRA é uma queda abrupta da função renal. Definida por creatinina ≥0,3 mg/dL em 48h ou ≥1,5x basal em 7 dias, ou débito urinário <0,5 mL/kg/h por ≥6h.
Estadiamento KDIGO (pelo pior critério):
- Estágio 1: 1,5–1,9x basal ou ↑≥0,3 mg/dL; DU <0,5 por 6–12h.
- Estágio 2: 2,0–2,9x basal; DU <0,5 por ≥12h.
- Estágio 3: ≥3x basal ou Cr ≥4,0 mg/dL ou diálise; DU <0,3 por ≥24h ou anúria ≥12h.
Topografia (índices urinários são cruciais):
- Pré-renal: Hipoperfusão (hipovolemia, IC, sepse). Rim íntegro, reabsorve Na e água. FeNa <1%, UNa <20, OsmU >500. Tratamento: reposição volêmica com SF 0,9%.
- NTA (renal intrínseca): Isquêmica (choque prolongado) ou tóxica (contraste, gentamicina, rabdomiólise). FeNa >2%, UNa >40, OsmU <350. Sedimento: cilindros granulosos 'muddy brown'. Tratamento: suporte.
- NIA (Nefrite Intersticial Aguda): Droga recente + febre + rash + eosinofilia. Tratamento: suspender a droga.
- Pós-renal: Obstrução (HPB, cálculo, neoplasia) → hidronefrose no US. Tratamento: desobstrução imediata.
Indicações de Diálise (mnemônico AEIOU):
- Acidose metabólica grave refratária (pH < 7,1).
- Eletrólitos (hipercalemia > 6,5 mEq/L ou com ECG alterado, refratária).
- Intoxicações dialisáveis (metanol, lítio).
- Overload (hipervolemia/EAP refratário a diurético).
- Uremia sintomática (encefalopatia, pericardite).
Diuréticos e