O neoliberalismo: Origens e Expansão é um tema crucial para compreender a política econômica contemporânea. Este artigo detalha como essa ideologia minoritária se tornou dominante, especialmente no Reino Unido e nos Estados Unidos, a partir das crises econômicas dos anos 70 e da habilidade de líderes como Margaret Thatcher e Ronald Reagan para forjar um novo consenso político e cultural.
O Ressurgimento do Neoliberalismo: Contexto Britânico e a Década de 1970
O Estado de bem-estar social, estabelecido na Grã-Bretanha após a Segunda Guerra Mundial, não foi universalmente aceito. Críticas persistentes, lideradas por meios como o Financial Times, denunciavam a ineptidão burocrática estatal e o poder sindical opressor, promovendo valores de individualismo e liberdade.
Essas críticas se intensificaram durante a década de 1960 e ganharam mais força com a estagnação econômica dos anos 70, uma época de estagflação. As pessoas temiam que a Grã-Bretanha se tornasse um "Estado corporativista, fadado a uma mediocridade cinzenta"²⁸.
A corrente de pensamento de Hayek oferecia uma alternativa. Contava com o apoio de acadêmicos e, crucialmente, dominava o trabalho de instituições como o Institute of Economic Affairs (fundado em 1955) e o Centre for Policy Studies (1974).
Figuras como Keith Joseph, assessor-chave de Margaret Thatcher, emergiram neste contexto, e a imprensa se engajou progressivamente com a neoliberalização. Um significativo movimento juvenil da década de 1960, com sua sátira política e cultura pop, desafiou as estruturas de classe tradicionais, preparando o terreno para um ceticismo geral em relação às "metanarrativas" políticas.
Crise de Acumulação e Estagflação: O Catalisador
A ascensão de Thatcher não teria sido possível sem a grave crise de acumulação de capital nos anos 70. Em 1975, a inflação atingiu 26% e o desemprego superou um milhão de trabalhadores.
As indústrias nacionalizadas drenavam recursos do tesouro público, o que levou a confrontos entre o Estado e os sindicatos. As greves de mineiros em 1972 e 1974, em resposta a salários que não acompanhavam o ritmo da inflação, paralisaram o país.
O governo conservador declarou estado de emergência e impôs uma jornada de trabalho de três dias. Após perder as eleições de 1974, o governo trabalhista chegou a um acordo favorável com os mineiros, mas essa vitória foi pírrica.
O governo trabalhista se deparou com um elevado déficit orçamentário e uma crise de balança de pagamentos. Ao solicitar empréstimos ao FMI em 1975-1976, viu-se forçado a aceitar drásticos cortes orçamentários no sistema de bem-estar social²⁹.
Este governo, ao agir contra os interesses de seus próprios apoiadores, não resolveu a crise, o que culminou no "inverno do descontentamento" de 1978. As greves no setor público, incluindo hospitais e serviços funerários, minaram a opinião pública e levaram à queda do governo trabalhista.
A Revolução Neoliberal de Thatcher no Reino Unido
Margaret Thatcher chegou ao poder com um mandato claro para domar o poder sindical e combater a inflação. Implementou o monetarismo e um rigoroso controle orçamentário.
As altas taxas de juros provocaram um desemprego massivo (10% em média entre 1979 e 1984), enfraquecendo o poder de barganha dos trabalhadores. Um assessor econômico de Thatcher admitiu que as políticas eram uma forma "disfarçada de atacar os trabalhadores".
Thatcher emulou Reagan ao provocar a greve dos mineiros em 1984, anunciando demissões e fechamentos de minas. Após quase um ano, os mineiros perderam, quebrando uma defesa fundamental do movimento operário britânico³¹.
Desindustrialização e Privatização
Para reduzir ainda mais o poder sindical, Thatcher abriu o Reino Unido à concorrência e ao investimento estrangeiro. A desindustrialização devastou setores tradicionais como o aço e os estaleiros, eliminando grande parte do poder sindical.
A indústria automobilística nacionalizada foi destruída, e o Reino Unido se tornou uma plataforma para empresas automobilísticas japonesas com mão de obra não sindicalizada. Isso transformou o país em uma nação de salários relativamente baixos e uma força de trabalho submissa em uma década.
As privatizações em massa foram outra pedra angular de sua política. Empresas como British Aerospace, British Telecom, British Airways, e as indústrias de carvão, eletricidade, gás e água foram vendidas. Isso não apenas engordou os cofres públicos, mas também buscou transformar a cultura política, promovendo a responsabilidade corporativa e individual e a eficiência.
A venda de moradias públicas aos seus inquilinos foi fundamental para forjar o consentimento, satisfazendo o ideal de propriedade privada e estimulando o mercado imobiliário. No entanto, o desmantelamento do Estado de bem-estar social em áreas como educação e saúde encontrou mais resistência.
A Construção do Consenso e a Classe Média
Thatcher forjou o consentimento cultivando uma classe média que abraçava a propriedade, o individualismo e as oportunidades empresariais. À medida que a solidariedade operária diminuía, os valores da classe média se espalharam, integrando muitos com antigas identidades de classe.
A abertura da Grã-Bretanha a um mercado mais livre propiciou a cultura de consumo e o endividamento. A City de Londres se consolidou como um centro financeiro global, atraindo talentos e transformando Londres em um dinâmico centro de riqueza.
O programa de Thatcher, especialmente em seu primeiro mandato, foi fortemente impulsionado pela teoria neoliberal. Buscou restaurar o poder de classe, mesmo às custas dos trabalhadores, e utilizou a desregulação para favorecer as elites financeiras e industriais.
Neoliberalismo nos Estados Unidos: O Caso Reagan e a Cidade de Nova York
A construção do consentimento nos Estados Unidos tomou um caminho diferente. Um documento-chave foi a nota confidencial de Lewis Powell à Câmara de Comércio dos EUA em 1971. Powell argumentava que a crítica ao sistema de livre empresa havia ido longe demais e instava as empresas a se organizarem "agressiva e determinantemente" para defender seus interesses.
Essa chamada à ação levou a uma expansão massiva da Câmara de Comércio e à criação da Business Roundtable, uma organização de altos executivos dedicada à "busca agressiva de poder político para a corporação".
Think tanks como a Heritage Foundation e o American Enterprise Institute, financiados por corporações e indivíduos ricos, surgiram para promover ideias neoliberais. O National Bureau of Economic Research (NBER), com financiamento de empresas Fortune 500, influenciou os departamentos de economia e escolas de negócios.
A Crise Fiscal de Nova York como Precedente
A crise fiscal da cidade de Nova York em meados dos anos 70 serviu como um laboratório para as políticas neoliberais. A desindustrialização e a suburbanização haviam corroído a base econômica da cidade, gerando descontentamento social.
Diante do déficit, em 1975, um grupo de bancos de investimento, liderado por Walter Wriston do Citibank, recusou-se a refinanciar a dívida da cidade, empurrando-a para uma falência técnica. O resgate implicou a criação de novas instituições que gerenciaram o orçamento, priorizando o pagamento aos detentores de títulos.
Isso levou à frustração dos sindicatos municipais, congelamento salarial, cortes no emprego público e serviços sociais (educação, saúde) e a introdução de taxas universitárias. Os sindicatos foram forçados a investir seus fundos de pensão em títulos da cidade, moderando suas demandas para evitar a falência.
Essa "operação de resgate" equivalia a um golpe das instituições financeiras contra o governo democrático de Nova York. O então secretário do Tesouro, William Simon, vendo o precedente do Chile, recomendou ao presidente Ford não auxiliar a cidade, querendo que a experiência fosse "tão punitiva, e toda a experiência tão dolorosa, que nenhuma cidade... jamais tivesse a tentação de seguir o mesmo caminho"⁹.
A resistência foi generalizada, mas a "contrarrevolução de cima para baixo" se consolidou. A infraestrutura social e física de Nova York se deteriorou, e a classe trabalhadora e os imigrantes foram marginalizados, afetados pelo racismo e epidemias como a do crack e a AIDS.
A gestão da crise de Nova York estabeleceu o princípio de que os interesses financeiros e os detentores de títulos tinham prioridade sobre o bem-estar dos cidadãos. O papel do governo foi redefinido para criar um "clima ótimo para os negócios", utilizando recursos públicos para infraestrutura e isenções fiscais para empresas.
A Aliança de Reagan e a Direita Conservadora
A chegada de Ronald Reagan à presidência em 1980 marcou a escala nacional dessas práticas. As empresas "aprimoraram sua capacidade de agir como classe", buscando a unidade para promover legislações favoráveis em detrimento dos direitos dos consumidores e trabalhadores.
Os comitês de ação política (PACs) empresariais aumentaram exponencialmente, financiando candidatos e assegurando o domínio financeiro dos partidos. Reagan e William Simon instaram os PACs a apoiar candidatos republicanos de direita¹⁶.
O Partido Republicano forjou uma sólida base eleitoral aliando-se à direita cristã através de movimentos como a "Maioria Moral" de Jerry Falwell. Também apelou ao nacionalismo cultural das classes trabalhadoras brancas, mobilizadas através de argumentos culturais, religiosos e racistas, muitas vezes contra seus próprios interesses materiais.
Intelectuais neoconservadores, como Irving Kristol, apoiaram a guinada neoliberal econômica, mas criticaram os "excessos liberais" no âmbito cultural, desviando a atenção do capitalismo como causa dos problemas sociais.
Políticas de Desregulação e Ataque aos Sindicatos
As políticas de Reagan se concentraram na redução do alcance e conteúdo da regulamentação federal na indústria, meio ambiente, condições de trabalho e saúde. Os cortes orçamentários, a desregulação e a nomeação de funcionários anti-regulamentação foram as ferramentas-chave²².
O National Labour Relations Board se transformou em um veículo para atacar os direitos dos trabalhadores. Revisou-se o código tributário para reduzir impostos sobre as rendas mais altas e permitir que corporações evitassem pagar impostos.
Os ativos públicos foram transferidos para o domínio privado, como no caso da pesquisa farmacêutica financiada com fundos públicos que depois beneficiou exclusivamente empresas privadas²⁴.
O controle da força de trabalho foi crucial. Reagan, emulando a disciplina imposta em Nova York, disciplinou os controladores de tráfego aéreo em 1981, deixando claro que os sindicatos não eram bem-vindos. A desindustrialização do "rust belt" e a transferência de fábricas para estados com baixa sindicalização ou para o exterior enfraqueceram o poder operário.
Embora se utilizou a "vara" contra os sindicatos, também se ofereceram "cenouras" aos trabalhadores individuais. A retórica neoliberal promoveu a flexibilidade laboral e uma maior autonomia como virtudes, integrando valores liberais no "senso comum" da força de trabalho.
As ideias econômicas que sustentaram essa guinada incluíram o monetarismo de Friedman, as expectativas racionais, a escolha pública e as políticas do lado da oferta. A premissa era que a intervenção governamental era o problema e que os cortes fiscais e a estabilidade monetária gerariam prosperidade²³.
A imprensa financeira, como The Wall Street Journal, defendeu a neoliberalização. Universidades e escolas de negócios, financiadas por corporações, tornaram-se centros de ortodoxia neoliberal, difundindo essas ideias em nível nacional e internacional.
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Legado de Reagan e Thatcher
O sucesso de Reagan e Thatcher residiu em transformar posições políticas, ideológicas e intelectuais minoritárias em dominantes. Consolidaram alianças e maiorias que foram difíceis de desmantelar para as gerações posteriores de líderes políticos.
Mesmo presidentes como Clinton e Blair se depararam com uma margem de manobra limitada, continuando o processo de restauração do poder de classe. O neoliberalismo se integrou tão profundamente no mundo anglo-saxão que sua relevância no capitalismo internacional se tornou inegável.
Embora as circunstâncias internas e a natureza da guinada neoliberal tenham sido diferentes no Reino Unido e nos Estados Unidos, ambos os casos demonstram como as forças internas e externas desempenharam um papel específico na expansão dessa ideologia.
Perguntas Frequentes (FAQ)
O que foi a estagflação e como ela influenciou o neoliberalismo?
A estagflação foi um período de alta inflação e alto desemprego (estagnação econômica) que afetou muitas economias ocidentais na década de 1970. No Reino Unido e nos EUA, essa crise econômica enfraqueceu a confiança no Estado de bem-estar social keynesiano e criou um clima propício para as soluções neoliberais, que prometiam controlar a inflação e estimular o crescimento mediante a redução da intervenção estatal e do poder sindical.
Como o "consentimento" para o neoliberalismo foi construído nas democracias?
O consentimento foi construído mediante uma combinação de crise econômica, crítica ideológica e apelo a valores culturais. Promoveu-se a ideia de que a liberdade individual e as oportunidades empresariais eram a solução para os problemas sociais, encobrindo o objetivo de restaurar o poder das elites. Think tanks, meios de comunicação e universidades difundiram ideias neoliberais, enquanto líderes como Thatcher e Reagan mobilizaram a classe média e a direita conservadora para apoiar suas políticas de privatização, desregulação e enfraquecimento sindical.
Que papel a desindustrialização e o poder sindical desempenharam na ascensão do neoliberalismo?
A desindustrialização e a erosão do poder sindical foram pilares do neoliberalismo. No Reino Unido, Thatcher confrontou diretamente os poderosos sindicatos, especialmente o dos mineiros, enfraquecendo sua capacidade de negociação. Nos EUA, Reagan também enfrentou os sindicatos, enquanto as empresas transferiam a produção para regiões ou países com menor sindicalização. A desindustrialização de regiões-chave, como o "rust belt", e a repressão sindical liberaram as empresas de custos trabalhistas e regulamentações, redirecionando a riqueza para o capital e enfraquecendo a solidariedade operária.