Olá, futuros especialistas em neurociência e linguagem! Hoje vamos abordar um tema fundamental: os Transtornos Neurocognitivos e a Avaliação Neurológica. Entenderemos o que são, como se classificam e por que uma avaliação precisa é crucial para quem os possui. Prepare-se para uma jornada ao fascinante mundo do cérebro e seus desafios comunicativos.
O Que São os Transtornos Neurocognitivos e Sua Avaliação Neurológica?
Os Transtornos Neurocognitivos (TNC) abrangem diversas doenças cerebrais, em sua maioria progressivas, que se caracterizam pelo comprometimento de funções cognitivas. Esse comprometimento afeta significativamente a autonomia funcional, ou seja, a capacidade de uma pessoa para realizar atividades cotidianas habituais.
Esses transtornos podem vir acompanhados de sintomas psicológicos e comportamentais. A sintomatologia específica varia de acordo com o tipo de demência, seu estágio e a presença de outras comorbidades, assim como características individuais e contextuais do paciente. A avaliação neurológica busca identificar e caracterizar essas alterações.
Prevalência e Causas Comuns dos TNC
Os Transtornos Neurocognitivos Maiores (TNCMa), anteriormente conhecidos como demências, têm uma prevalência de 1,06% na população geral e aumentam para 7% em maiores de 60 anos. São mais comuns em mulheres (7,7%) do que em homens (5,9%).
As causas mais frequentes incluem:
- Doença de Alzheimer: Responsável por 60 a 80% dos casos.
- Demência vascular: Abrange de 20 a 30%.
- Demência por Corpos de Lewy: Cerca de 5%.
- Demência frontotemporal: 3% em maiores de 65 anos e 10% em menores de 65 anos.
Manifestações Clínicas dos TNC Maiores
Segundo a OMS (1998), as deficiências devem estar presentes por pelo menos 6 meses, e com um nível de consciência normal (sem excluir alterações episódicas). As principais manifestações são:
- Comprometimento da memória: Alteração na capacidade de registrar, armazenar e evocar informações, incluindo perda de conteúdos mnésticos familiares ou passados.
- Comprometimento do pensamento e do raciocínio: Redução do fluxo de ideias, dificuldades no processamento de informações, problemas para manter a atenção em múltiplos estímulos e para mudar o foco atencional.
- Interferência na atividade cotidiana: O comprometimento cognitivo impacta diretamente nas atividades diárias.
Classificação dos Transtornos Neurocognitivos: Leve, Moderado e Grave
O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5, 2013) distingue entre Transtorno Neurocognitivo Menor (TNCMe) e Maior (TNCMa) de acordo com o impacto na autonomia:
- TNC Menor/Leve (DCL): O desempenho em testes neuropsicológicos está de 1 a 1,5 desvios padrão abaixo do esperado. A alteração é insuficiente para afetar a autonomia.
- TNC Maior: O desempenho está 2 ou mais desvios padrão abaixo do esperado. A alteração afeta desde as atividades instrumentais da vida diária.
A severidade de um TNCMa é classificada em:
- Leve: Dificuldades exclusivas para as Atividades Instrumentais da Vida Diária (AIVD) (gerenciar dinheiro, medicamentos, transporte, etc.).
- Moderado: As dificuldades incluem também as Atividades Básicas da Vida Diária (ABVD) (comer, vestir-se, tomar banho, etc.).
- Grave: A pessoa é totalmente dependente.
Afasias: Um Transtorno de Linguagem Adquirido
Uma afasia é um transtorno de linguagem adquirido, causado por uma lesão cerebral em uma pessoa que previamente falava com normalidade. Afeta geralmente a expressão verbal, a compreensão auditiva, a leitura e a escrita, sem ser explicada por um transtorno sensorial, motor, intelectual, confusional ou psiquiátrico.
O Acidente Vascular Cerebral (AVC) é a causa mais frequente de afasia (21-38%), sendo a afasia global o tipo mais comum na fase aguda (50%). A incidência é maior em pessoas de 75 a 84 anos e no sexo feminino (53,6%).
Semiologia e Características da Linguagem Afásica
Para avaliar a afasia, são considerados diversos aspectos da linguagem (González Lázaro & González Ortuño, 2016):
- Linguagem espontânea: Avalia a articulação (fonético), seleção de fonemas (fonológico), estruturação de orações (morfossintático), capacidade de transmitir informação (discurso) e padrões melódicos (prosódia).
- Compreensão: Habilidade para entender a linguagem oral em diferentes níveis.
- Nomeação: Capacidade de nomear objetos, ações e suas características.
- Repetição: Capacidade de repetir fonemas, palavras, frases e orações.
- Leitura: Leitura oral ou compreensão leitora.
- Escrita: Escrita automática, espontânea, cópia, ditado.
Alterações Associadas às Afasias
Durante o processo comunicativo em afasias, podem aparecer fenômenos como:
- Estereotipias: Emissão repetitiva de elementos silábicos, fonemas sem significado ou palavras quando o paciente tenta articular linguagem. É uma redução severa da linguagem.
- Perseverações: Utilização repetitiva e inapropriada de elementos da linguagem emitidos previamente, mesmo quando a tarefa mudou.
- Ecolalia: Repetição automática de palavras ou frases ditas por outra pessoa, observada em casos com grave redução da linguagem espontânea.
- Parafasias: Utilização de uma palavra em vez de outra.
- Semânticas: Troca por uma palavra semanticamente relacionada.
- Fonológicas: Substituição de um ou mais fonemas de uma palavra.
- Jargão afásico (Jergafasia): Expressão verbal ininteligível por acúmulo excessivo de parafasias (fonológica, semântica ou mista).
- Neologismos: Deformação fonêmica severa, onde mais da metade dos fonemas são alheios à palavra.
- Logorreia: Produção verbal excessiva.
- Circunlóquios: Descrição de um objeto ou rodeio explicativo diante da dificuldade para encontrar uma palavra.
Também são observadas alterações gramaticais:
- Disintaxe: Seleção inadequada de morfemas gramaticais e palavras de classe fechada.
- Agramatismo: Redução dos elementos gramaticais da linguagem, com retenção de nomes, verbos e adjetivos.
Classificação da Afasia: Uma Visão Geral
Existem diversas classificações da afasia, incluindo (Weisenburg & McBride; Wernicke; e segundo fluência e localização):
- Expressiva/Receptiva/Mista.
- Motora/Sensitiva/Mista.
- Não fluente/Fluente/Semifluente.
- Anteriores/Posteriores.
Afasias Expressivas (Alteração da Expressão da Linguagem)
- Afasia de Broca:
- Nomeação: Alterada, melhora com pista fonológica.
- Repetição: Alterada.
- Linguagem espontânea: Não fluente, com grande esforço, lentidão e dificuldade. Agramatismo.
- Compreensão: Majoritariamente preservada, mas assintática.
- Lesão: Área de Broca e zonas adjacentes.
- Associados: Hemiparesia faciobraquiocrural direita, hemi-hipoestesia direita, síndrome pré-frontal.
- Afasia Transcortical Motora:
- Nomeação: Anomia leve, melhora com pista silábica.
- Repetição: Preservada, mas com possíveis perseverações e parafasias fonológicas.
- Linguagem espontânea: Não fluente, lenta, com esforço. Ecolalia e estereotipias.
- Compreensão: Majoritariamente preservada, com dificuldades em complexidade morfossintática.
- Lesão: Anterior ou superior à Área de Broca.
- Associados: Apatia, abulia, hemiparesia faciobraquiocrural.
Afasias Compreensivas (Alteração da Compreensão da Linguagem)
- Afasia de Wernicke:
- Nomeação: Severamente alterada (parafasias semânticas, neologismos).
- Repetição: Alterada (parafasias, neologismos, jargão).
- Linguagem espontânea: Fluente, logorreica, com parafasias semânticas e neologismos, pode chegar a jargão afásico.
- Compreensão: Severamente alterada.
- Lesão: Área de Wernicke e zonas circundantes.
- Associados: Anosognosia, alteração visuoconstrutiva, acalculia por afasia, apraxia ideomotora, hemianopsia homônima direita.
- Afasia Transcortical Sensorial:
- Nomeação: Alterada (parafasias semânticas, neologismos).
- Repetição: Boa ou excelente.
- Linguagem espontânea: Fluente, com parafasias semânticas, neologismos, ecolalia.
- Compreensão: Severamente alterada.
- Lesão: Parte posterior da circunvolução temporal média, angular e córtex occipital anterior.
- Associados: Síndrome de Gerstmann (acalculia, agnosia digital, desorientação direita-esquerda), hemianopsia, hemi-hipoestesia.
Afasias Mistas (Alteração de Expressão e Compreensão da Linguagem)
- Afasia Global:
- Nomeação: Nula, com balbucios ininteligíveis ou estereotipias.
- Repetição: Nula.
- Linguagem espontânea: Não fluente, reduzida ou nula (mutismo).
- Compreensão: Severamente alterada, apenas ordens simples ou de alta frequência.
- Lesão: Massiva frontoparietotemporal esquerda.
- Associados: Hemiplegia direita, hemianestesia, hemianopsia direita, síndrome disexecutiva.
- Afasia Não Fluente Mista:
- Nomeação: Incapazes de nomear objetos ou ações, mesmo com ajuda.
- Repetição: Incapaz de repetir enunciados.
- Linguagem espontânea: Não fluente, estereotipias, esforço articulatório.
- Compreensão: Orações simples com apoio contextual e emotivo.
- Lesão: Extensa, áreas anteriores e posteriores do sulco central.
- Afasia Transcortical Mista:
- Nomeação: Muito diminuída, neologismos ou estereotipias.
- Repetição: Preservada, mas limitada e sem compreensão.
- Linguagem espontânea: Não fluente, muito reduzida ou ausente, quase exclusivamente ecolálica.
- Compreensão: Severamente alterada, ordens simples.
- Lesão: Isolamento da área perissilviana por lesões difusas ou multifocais.
- Associados: Hemiplegia, disestereognosia, hemi-hipoestesia, disgrafiestesia, hemianopsia.
Outras Afasias
- Afasia de Condução:
- Nomeação: Anomia em palavras de baixa frequência, parafasias fonológicas.
- Repetição: Sempre alterada com parafasias fonológicas e autocorreção.
- Linguagem espontânea: Fluente, anomia, sem alterações articulatórias.
- Compreensão: Majoritariamente preservada, com dificuldade em elementos gramaticais complexos.
- Lesão: Região perissilviana superior-posterior esquerda, parte da ínsula e circunvolução supramarginal.
- Associados: Apraxia ideomotora e ideatória, hemi-hipoestesia direita, déficit na memória de curto prazo, acalculia por afasia, alteração visuoconstrutiva.
- Afasia Anômica:
- Nomeação: Alteração principal, melhora com pista fonológica.
- Repetição: Preservada.
- Linguagem espontânea: Fluida, mas com pausas e circunlóquios frequentes.
- Compreensão: Preservada.
- Lesão: Parte média ou posterior das circunvoluções temporais média e inferior esquerdas.
- Associados: Geralmente não há alterações neurológicas associadas, salvo alexia e agrafia se a circunvolução angular for lesionada.
Transtorno Cognitivo Comunicativo (TCC): Além da Afasia
O Transtorno Cognitivo Comunicativo (TCC) refere-se a dificuldades em qualquer aspecto da comunicação que seja afetado pela interrupção da cognição. Isso inclui aspectos verbais e não verbais, e se relaciona com processos cognitivos como atenção, percepção, memória, organização e funções executivas.
A prevalência do TCC é alta: entre 39% e 49% após o primeiro AVC, e 80% a 100% após um traumatismo cranioencefálico (TCE). É a consequência mais persistente de afecções neurocognitivas, impactando a reinserção profissional e a socialização.
Proposta de Classificação Clínica do TCC
Pesquisas recentes propõem uma classificação do TCC baseada em suas características clínicas, dada sua heterogeneidade. Sugerem-se três agrupamentos:
- TCC Executivo (TCCe): Predominam os déficits nas funções executivas (memória de trabalho, atenção, planejamento, flexibilidade cognitiva e inibição), que consequentemente alteram o processo linguístico-comunicativo típico. As dificuldades na memória de trabalho repercutem na compreensão de enunciados extensos, enquanto as alterações atencionais afetam a tomada de turnos conversacionais.
- TCC Pragmático (TCCp): Apresentam-se déficits em habilidades pragmáticas que permitem a contextualização social, alterando o processo comunicativo típico. Isso inclui déficits prosódicos, limitações no reconhecimento de expressões faciais, incoerência discursiva, dificuldade na manutenção de tópicos e compreensão de inferências/abstrações.
- TCC Executivo-Pragmático (TCCep): Combina déficits tanto em funções executivas quanto em habilidades pragmáticas, afetando o processo linguístico-comunicativo.
A severidade do TCC pode ser classificada em:
- Leve: Deficiências que não geram uma repercussão significativa na atividade comunicativa.
- Moderado: Restrição na atividade comunicativa.
- Severo: Restrição na participação social.
Afasia Progressiva Primária (APP)
A Afasia Progressiva Primária (APP) é um síndrome clínico caracterizado por uma perda progressiva da linguagem durante pelo menos 2 anos, sem outros impedimentos cognitivos no início. As alterações de memória verbal, visual ou problemas visuoespaciais estão ausentes.
Existem três variantes principais (Gorno-Tempeni et al., 2011):
- APP Não Fluente/Agramatical (Variante Não Fluente):
- Características: Fala não fluente, laboriosa, agramatical, com esforço e erros inconsistentes. Substituição, transposição, inserções e eliminações de sons. Compreensão assintática. Mecânica da fala e prosódia levemente alteradas.
- Critérios (pelo menos 1): Fala agramatical e/ou esforço para deter o discurso com erros inconsistentes na fala. Compreensão de palavras intacta, mas compreensão assintática.
- Demência Semântica (Variante Semântica):
- Características: Anomia, alteração da compreensão de palavras simples e conhecimento de objetos. Discurso progressivamente vazio, parafasias semânticas, circunlóquios. Linguagem fluente, gramática, compreensão de frases e repetição preservadas. Perda progressiva do conhecimento semântico.
- Critérios (pelo menos 3): Dificuldade no conhecimento de objetos. Repetição de palavras preservada. Alexia superficial ou agrafia. Gramática preservada.
- Associados: Agnosia visual (comprometimento do reconhecimento de objetos), prosopagnosia (incapacidade de reconhecer rostos), alexia superficial (dificuldade em ler palavras irregulares).
- APP Logopênica (Variante Logopênica):
- Características: Fala lenta com fluidez reduzida por busca de palavras. Déficit na repetição de frases e evocação de palavras. Linguagem anômica. Articulação, gramática e prosódia preservadas. Compreensão de palavras simples preservada.
- Critérios (pelo menos 2): Erros fonológicos na linguagem. Mecânica da fala e gramática preservadas. Compreensão preservada para palavras isoladas e reconhecimento de objetos.
Traumatismo Cranioencefálico (TCE) e Suas Consequências Comunicativas
A Brain Injury Association define a Lesão Cerebral Traumática (LCT) como um golpe ou ferimento penetrante na cabeça que altera a função cerebral. Produz-se por uma troca brusca de energia mecânica que gera deterioração física e/ou funcional do conteúdo craniano.
População de Risco e Causas
O TCE tem maior risco em homens, crianças de 0 a 4 anos, adolescentes de 15 a 19 anos e adultos maiores de 65 anos. As principais causas são quedas e acidentes em veículos motorizados.
Classificação do TCE e Sequelas
Classifica-se segundo a Escala de Glasgow (Leve: 14-15; Moderado: 9-13; Severo: 3-8) e se é aberto (crânio fraturado ou penetrado) ou fechado (sem comunicação do encéfalo com o exterior). A lesão predominante costuma ser a lesão axonal difusa.
As sequelas dividem-se em:
- Déficits focais: Alterações específicas da linguagem ou paralisia de músculos.
- Déficits difusos: Mais frequentes, manifestam-se como uma desestruturação cognitiva.
Quando a afasia se apresenta devido a um TCE, é provável que coexista com um transtorno cognitivo-comunicativo. Isso ressalta a complexidade da avaliação neurológica integral.
Perguntas Frequentes sobre Transtornos Neurocognitivos e Afasias
Qual é a diferença principal entre um Transtorno Neurocognitivo Maior e um Menor?
A diferença principal reside no impacto na autonomia funcional. Em um Transtorno Neurocognitivo Maior, as alterações cognitivas são suficientes para afetar a independência em atividades instrumentais ou básicas da vida diária, enquanto em um Transtorno Neurocognitivo Menor, a autonomia não é afetada de maneira significativa, embora haja um desempenho cognitivo inferior ao esperado.
Uma pessoa com afasia de Wernicke consegue compreender o que lhe é dito?
Não, a afasia de Wernicke caracteriza-se por uma compreensão da linguagem severamente alterada. Apesar de a linguagem espontânea poder ser fluente, e até logorreica, ela é cheia de parafasias semânticas e neologismos, o que a torna ininteligível para o ouvinte, e o paciente tem grandes dificuldades para entender o que lhe é comunicado.
Que implicações o Transtorno Cognitivo Comunicativo (TCC) tem para a vida diária de um estudante?
Para um estudante, o TCC pode repercutir diretamente na aprendizagem, no desempenho acadêmico, na interação social e na participação comunitária. As dificuldades em funções executivas, memória, atenção ou pragmática podem dificultar a compreensão de aulas, a elaboração de trabalhos, a interação com colegas e a resolução de problemas acadêmicos, o que afeta sua reinserção profissional e socialização futura.
É possível que um Traumatismo Cranioencefálico cause afasia?
Sim, embora seja menos frequente que o Acidente Vascular Cerebral (AVC), um Traumatismo Cranioencefálico (TCE) pode causar afasia. Nesses casos, é comum que a afasia coexista com um Transtorno Cognitivo Comunicativo (TCC), adicionando uma camada de complexidade às sequelas neurológicas.
Como se avalia a severidade de uma afasia?
A severidade de uma afasia é avaliada por meio de testes padronizados que medem diferentes aspectos da linguagem, como a fluência, a repetição, a compreensão e a nomeação. Escalas como a de Boston são comuns, e os resultados são interpretados em percentis ou pontuações que classificam a afasia como muito severa, severa, moderada ou leve, com um intervalo de pontuações para cada categoria (ex: muito severa <10, severa 10-13,5, etc.).