As Perspectivas Decoloniais no Serviço Social representam um campo vital e transformador que convida a uma profunda reflexão sobre como entendemos, praticamos e pesquisamos o âmbito social. Essa abordagem desafia as estruturas de conhecimento tradicionais e propõe novas maneiras de abordar as problemáticas sociais, especialmente em contextos marcados pela herança colonial.
O Serviço Social, assim como as ciências sociais, busca compreender o cotidiano de indivíduos e coletivos para melhorar suas condições de vida. No entanto, a perspectiva decolonial impulsiona uma mudança paradigmática, gerando novos debates na teoria, na epistemologia, na metodologia e na ética da disciplina, tudo isso a partir de um elemento cultural e de uma visão crítica do mundo.
A Diversidade e o Saber na Perspectiva Decolonial do Serviço Social
A influência de uma perspectiva decolonial no Serviço Social estende-se à compreensão da diversidade e do saber. Organismos internacionais como a UNESCO têm abordado a diversidade como uma condição inerente ao ser humano. Desde sua fundação em 1945, em um mundo pós-guerra e em pleno processo de independência africana, a UNESCO tem promovido a paz, a segurança global e a solidariedade, reconhecendo a cultura como fonte de evolução e progresso, e ampliando a diversidade para questões étnicas, sexuais e religiosas.
A Diversidade como Questão Social e o Papel da UNESCO
A diversidade humana na UNESCO é fundamental. Suas declarações e recomendações, fruto de conferências bienais, sublinham a importância do pluralismo, que garante o acesso e a participação das minorias. Nesse sentido, a cultura se torna um cenário chave de participação que enriquece a sociedade.
Saberes Diversos: Um Pilar para a Coexistência Global
A UNESCO também ressalta a importância dos saberes diversos. Considera o saber como acumulativo, universal e pessoal, essencial para a coexistência humana e o intercâmbio de conhecimentos. O saber não só forma a identidade e a coesão social, mas também se vincula diretamente com a educação, a ciência e a cultura, tornando-se uma fonte para a paz mundial ao contrariar preconceitos e romper com as incertezas. O intercâmbio de saberes locais, integrados com valores científicos universais, é crucial para o enriquecimento mútuo e o diálogo intelectual baseado no pluralismo cultural. No entanto, sua possível mercantilização exige um atento exame público, já que o saber é um bem comum.
Síntese Intelectual e Decolonial do Serviço Social
A síntese intelectual e decolonial do Serviço Social implica questionar as discussões, os sistemas de conhecimento institucionalizados e as teorias influenciadas por um sistema capitalista, moderno e colonial. Nas sociedades modernas, as diversidades frequentemente se encontram em condições de vulnerabilidade e atraso, exacerbadas pela injustiça cultural. A igualdade, incorporada através dos estados, propõe-se como o caminho para resolver essas injustiças, investigando os fenômenos sociais a partir de uma crítica ao capitalismo e à matriz moderna e epistemológica.
Rodolfo Kusch: América Profunda e a Desconexão Moderna
Rodolfo Kusch, em sua obra “América Profunda”, nos convida a abandonar a lógica racional ocidental para explorar outras dimensões do ser. Ele propõe que essa lógica nos desconecta de nossa essência, levando-nos a um “sonambulismo cultural” que impede encontrar sentido profundo à nossa existência.
A Dualidade entre o Estar e o Ser
Kusch recupera dois conceitos da cultura pré-colombiana fundamentais para entender a América profunda de Kusch: o Estar e o Ser. O Estar é passivo, ligado à vida agrária, ao feminino e à conexão com o aqui e agora, com o entorno. O Ser é ativo, vinculado à criação de objetos e à agressão, representando a dominação. Embora interdependentes, a modernidade tem priorizado o Ser, marginalizando o Estar, o que tem gerado uma sociedade desconectada do essencial.
A Fagocitação Cultural e o Odor do Americano
A fagocitação cultural é um processo inconsciente onde opostos se misturam para criar algo novo, explicando como as culturas locais foram absorvidas por valores ocidentais. No entanto, Kusch também vê nela um potencial para que os povos americanos recuperem seu sentido profundo. Essa integração entre o ocidental e o americano deve buscar um equilíbrio, sem anular uma cultura à outra.
O “odor do americano” descreve a percepção negativa que as classes médias e elites têm das raízes indígenas e autóctones, considerando-as desagradáveis ou impuras. Esse preconceito revela um medo de nossa própria identidade, do primitivo e do americano, associado a uma noção de “pulcritude” eurocêntrica.
Crítica à Modernidade e Legado Colonial
Para Kusch, a vida se define pela dualidade (dia/noite, ordem/caos). Na América, essa dualidade se manifesta na interação entre os estados profundos, com raízes espirituais, e as cidades. A chegada de Colombo, simbolizada como o início de um “mundo profundo”, trouxe uma visão eurocêntrica que eliminou tudo o que não se ajustava aos valores ocidentais, deixando as culturas originárias em um estado de despojo e dominação.
A modernidade, ao substituir a fé e o sentido de comunidade pela maquinaria e pelos objetos desumanos, converte as massas em “soldados do progresso”, gerando guerras e desigualdade. Na América Latina, o medo de sermos nós mesmos tem criado uma identidade híbrida, aprisionada entre o Ser ocidental e o Estar originário. Kusch propõe a necessidade de desaprender o imposto e recuperar uma filosofia de vida nascida do fazer cotidiano, valorizando as práticas comunitárias, a conexão com a terra e a intuição como formas de se distanciar do racionalismo. Isso implica criar um novo modelo que integre o sagrado, o coletivo e o instintivo, recuperando o sentido profundo do americano.
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Decolonialidade, Bem Viver e Respeito à Diversidade no Serviço Social
Marisol Patiño Sánchez enfatiza a importância de buscar formas de pensar, conhecer, sentir e agir a partir de uma perspectiva decolonial no Serviço Social latino-americano. Isso implica questionar as formas como as ciências modernas têm moldado nossa compreensão e transmissão do pensamento, centrando-se exclusivamente na razão e deixando de lado o coração.
Um Giro Decolonial no Serviço Social Latino-Americano
O Serviço Social decolonial latino-americano busca uma construção de conhecimento que recupere os ensinamentos dos anciãos sábios de nossos povos. Reconhece que a teoria social e o pensamento crítico na América Latina têm se nutrido historicamente de relatos europeus e estadunidenses, o que tem contribuído para uma subalternização dos saberes locais.
Questionando a Construção do Conhecimento e o Ensino
Para construir um novo conhecimento no Serviço Social, é essencial questionar como a disciplina tem sido edificada, considerando as relações de poder e as diferenças entre profissionais e ciências sociais. Patiño Sánchez propõe pensar outras formas de ensinar o epistêmico, priorizando os saberes esquecidos de nossos povos e os que emanam dos movimentos sociais e organizações populares da América Latina, que falam de “outra natureza do ser”. Esse giro decolonial é fundamental para a construção de conhecimento, a formação e a pesquisa no Serviço Social, permitindo uma prática mais enraizada e relevante às nossas realidades.
Perguntas Frequentes sobre Perspectivas Decoloniais no Serviço Social
O que significa a perspectiva decolonial no Serviço Social?
A perspectiva decolonial no Serviço Social implica questionar e desmantelar as formas de conhecimento, práticas e éticas impostas por sistemas coloniais e modernos. Busca reconhecer e valorizar saberes e experiências não ocidentais para construir abordagens mais justas e pertinentes às realidades diversas, especialmente na América Latina.
Como a UNESCO influencia a compreensão da diversidade a partir de uma perspectiva decolonial?
A UNESCO, embora nascida em um contexto pós-colonial, tem contribuído para o reconhecimento da diversidade cultural e do pluralismo. A partir de uma perspectiva decolonial, sua ênfase nos saberes diversos e no intercâmbio cultural pode ser reinterpretada para proteger e promover o conhecimento local e as culturas emergentes, desafiando a hegemonia de um único modelo de saber.
Quais são os conceitos-chave de Rodolfo Kusch sobre América Profunda?
Os conceitos-chave de Kusch são o Estar (conectado à terra, ao feminino, à passividade essencial) e o Ser (ligado à ação, à dominação, à racionalidade ocidental). Também introduz a fagocitação cultural, um processo de mistura e transformação cultural, e o “odor do americano” para descrever o desprezo das elites em relação às raízes indígenas.
Por que o giro decolonial é importante no Serviço Social latino-americano?
O giro decolonial é crucial para o Serviço Social latino-americano porque permite questionar as teorias e metodologias eurocêntricas que têm dominado a disciplina. Facilita a construção de um conhecimento enraizado nas realidades locais, valorizando os saberes ancestrais e as experiências dos movimentos sociais, para assim abordar as problemáticas sociais de maneira mais efetiva e equitativa. É uma aposta por uma profissão libertadora e contextualizada.
Que relação existe entre a decolonialidade e o “Bem Viver” no Serviço Social?
A decolonialidade no Serviço Social alinha-se com o conceito do “Bem Viver” ao buscar uma forma de vida em harmonia com a comunidade e a natureza, longe da lógica extrativista e acumuladora da modernidade. Implica uma mudança de paradigma em direção ao respeito pela diversidade, à reciprocidade e à complementaridade, que são pilares fundamentais das cosmovisões indígenas e que o Serviço Social decolonial busca integrar em sua teoria e prática.