Podcast sobre Conceitos Essenciais de Economia
Conceitos Essenciais de Economia: Guia Completo para Alunos
Podcast
Teoria do Mercado: A Dança da Oferta e da Procura
Délka: 26 minut
Kapitoly
O que move o mercado?
Os Dançarinos: Procura e Oferta
O Ponto de Equilíbrio
A Mão Invisível e as Suas Limitações
O Papel da Sociedade e do Estado
As Três Soluções Económicas
Autoridade vs. Mercado
A Ordem Espontânea do Autocarro
A Cruz que Explica Tudo
Quando o Estado Entra em Campo
O Papel do Estado na Economia
Os Três Grandes Objetivos
A Caixa de Ferramentas do Estado
Política Orçamental em Ação
O Extrato Bancário de um País
A Magia da Vantagem Comparativa
O Preço do Dinheiro
Os Árbitros e as Regras do Jogo
As Ondas da Economia
Políticas para Acalmar a Fera
Desemprego e a Lei de Okun
Resumo e Despedida
Přepis
Rafael: Muita gente pensa que o mercado é só uma confusão de gente a tentar ganhar dinheiro, uma espécie de selva. Mas e se for mais como uma dança perfeitamente coordenada?
Beatriz: Exatamente, Rafael! Uma dança onde todos sabem os passos sem que ninguém precise de ser o coreógrafo. Está a ouvir o Studyfi Podcast.
Rafael: Então, que dança é esta? E como é que eu aprendo os passos?
Beatriz: É mais simples do que parece. Tudo começa com duas ideias: utilidade e custo. Utilidade é o benefício que algo te dá. Custo é o sacrifício para o obter — tempo, dinheiro, esforço.
Rafael: Ok, benefício contra sacrifício. E quem são os dançarinos?
Beatriz: São a procura e a oferta. A procura representa os consumidores, nós, que compramos coisas baseados na utilidade que elas nos dão. A oferta representa os produtores, que vendem coisas baseados no seu custo de produção.
Rafael: E eles seguem alguma regra? Ou é cada um por si?
Beatriz: Seguimos a Lei da Procura e a Lei da Oferta! A Lei da Procura diz: quanto mais caro algo fica, menos gente quer comprar. Preço sobe, procura desce.
Rafael: Faz sentido. Se o meu salgado favorito duplicar de preço, eu vou pensar duas vezes antes de o comprar.
Beatriz: Precisamente! E a Lei da Oferta é o oposto: quanto mais alto o preço, mais os produtores querem vender para ter mais lucro. Preço sobe, quantidade oferecida também sobe.
Rafael: Então temos a procura a puxar para um lado e a oferta para o outro. Como é que eles chegam a um acordo?
Beatriz: Eles encontram-se no chamado equilíbrio de mercado. É o ponto mágico onde a quantidade que os consumidores querem comprar é exatamente igual à quantidade que os produtores querem vender.
Rafael: E nesse ponto, o preço fica estável?
Beatriz: Exato! Não há excesso de produto nem falta. É o preço justo, onde todos ficam satisfeitos. É a eficiência no seu melhor.
Rafael: E isto acontece tudo sozinho? Parece magia!
Beatriz: É quase isso! Adam Smith chamou a isto a "mão invisível". Cada um a pensar no seu próprio interesse acaba, sem querer, por beneficiar toda a sociedade. O preço é o grande sinalizador que guia toda a gente.
Rafael: Mas essa mão invisível nunca falha? Parece demasiado bom para ser verdade.
Beatriz: E tens razão. Às vezes falha. É o que chamamos de "falhas de mercado". Acontece quando os incentivos não estão alinhados e o interesse privado acaba por prejudicar a sociedade.
Rafael: Então o mercado não funciona isolado?
Beatriz: De maneira nenhuma. Ele precisa de uma base de confiança, de regras sociais — a tradição. E precisa também de uma autoridade, o Estado, para criar leis e garantir que são cumpridas.
Rafael: Então, é uma mistura dos três: mercado, tradição e autoridade.
Beatriz: Perfeito. Nenhum funciona bem sozinho. O Estado intervém quando o mercado falha, para corrigir problemas e promover o bem-estar. É tudo uma questão de encontrar o equilíbrio certo entre liberdade e regras.
Rafael: ...e é por isso que a ideia de racionalidade é tão central. Mas se todos nós agimos racionalmente para satisfazer as nossas próprias necessidades, como é que a sociedade não descamba no caos? Como é que organizamos a produção e distribuição de tudo?
Beatriz: Essa é a pergunta de um milhão de euros, Rafael! E a resposta é que as sociedades, ao longo do tempo, encontraram essencialmente três grandes formas de resolver este problema económico fundamental.
Rafael: Três formas? Ok, estou curioso. Quais são?
Beatriz: A primeira, e a mais antiga, é a Tradição. Aqui, as decisões económicas baseiam-se em regras, costumes e hábitos que passam de geração em geração. O filho do ferreiro torna-se ferreiro, plantamos o que os nossos avós plantavam, etc.
Rafael: Certo. Dá uma sensação de estabilidade, imagino. Sabes sempre o que esperar.
Beatriz: Exatamente! A grande vantagem é a estabilidade. A desvantagem... é a falta de flexibilidade. Se surge uma nova tecnologia ou uma crise inesperada, a tradição pode ser muito lenta a adaptar-se.
Rafael: Ok, então a tradição é a primeira. Qual é a segunda solução?
Beatriz: A segunda é a Autoridade. Pensa num rei, num governo ou em qualquer entidade central que toma as decisões. Essa autoridade decide o que produzir, como produzir e para quem. É mais flexível que a tradição, porque a autoridade pode mudar as regras rapidamente.
Rafael: Isso parece... eficiente, em teoria. Mas também um pouco autoritário, não?
Beatriz: Pode ser. O grande risco é que essa autoridade pode ser ineficiente, não ter toda a informação necessária para tomar as melhores decisões ou, pior, pode tomar decisões que beneficiam apenas um pequeno grupo no poder.
Rafael: E a terceira? Deixa-me adivinhar... é o Mercado.
Beatriz: É isso mesmo! O Mercado é a terceira solução e é fascinante. Baseia-se na liberdade de decisão. Ninguém te diz o que comprar ou o que vender. As pessoas e as empresas interagem livremente, e o sistema de preços coordena tudo.
Rafael: Parece o mais livre, mas também o mais frágil. Precisa de regras e confiança, certo?
Beatriz: Perfeitamente dito. O mercado é incrivelmente eficiente a alocar recursos, mas depende totalmente de um ambiente de confiança e de regras claras, que muitas vezes são garantidas pela Tradição e pela Autoridade, ou seja, pelo Estado.
Rafael: Então estas três soluções não são exclusivas. Elas misturam-se. Mas a ideia de o mercado se organizar sozinho... parece quase mágica. Como é que milhões de decisões individuais resultam em algo ordenado?
Beatriz: Deixa-me dar-te um exemplo muito simples que todos conhecemos: entrar num autocarro. Imagina uma paragem cheia de gente.
Rafael: Ok, já estou a sentir a ansiedade.
Beatriz: Exato! Agora, qual é o objetivo de cada pessoa? Entrar o mais rápido possível. Ninguém está a coordenar, não há um chefe a dizer "Tu vais para a porta da frente, tu para a de trás".
Rafael: Não, é cada um por si. Cada um escolhe a porta que lhe parece mais próxima ou com menos gente.
Beatriz: Precisamente! E o que acontece espontaneamente? As pessoas distribuem-se de forma mais ou menos equilibrada pelas portas disponíveis. Gera-se uma ordem, um equilíbrio, a partir de decisões puramente individuais e racionais. Ninguém planeou, mas funcionou.
Rafael: Uau. Nunca tinha pensado nisso. Então o mercado funciona de forma parecida? As decisões individuais de comprar e vender criam um equilíbrio geral?
Beatriz: Essa é a ideia central! O mercado, através dos incentivos, coordena milhões de "passageiros" económicos sem precisar de um planeador central. É o que chamamos de equilíbrio de mercado.
Rafael: E esse equilíbrio tem a ver com a oferta e a procura, certo? Lembro-me de ver um gráfico com duas linhas a cruzarem-se... a Cruz Marshalliana, acho eu.
Beatriz: A famosa Cruz Marshalliana! Sim, ela é a imagem desse equilíbrio. Pensa assim: de um lado, temos os consumidores, cuja decisão de comprar se baseia no valor ou na utilidade que um bem lhes dá. Quanto mais baixo o preço, mais eles querem comprar. É a curva da procura, a descer.
Rafael: Faz sentido. Se as pizzas estão em promoção, eu compro mais.
Beatriz: Exatamente! Do outro lado, temos os produtores. A decisão deles baseia-se no custo de produção. Quanto mais alto for o preço de venda, mais eles querem produzir e vender. Essa é a curva da oferta, a subir.
Rafael: Ok, uma curva desce, outra sobe... e elas cruzam-se.
Beatriz: E nesse ponto de cruzamento, o equilíbrio, acontece a magia. A quantidade que os consumidores querem comprar é exatamente igual à quantidade que os produtores querem vender. Não há excesso nem falta de produto. Os recursos são usados da forma mais eficiente possível naquele momento.
Rafael: Parece um sistema perfeito. Mas sabemos que na realidade não é. Há poluição, desigualdade... O mercado não resolve tudo.
Beatriz: Não, de todo. E é aí que a terceira solução, a Autoridade — ou seja, o Estado e a política económica — volta a ser crucial. O Estado intervém para corrigir as chamadas "falhas de mercado".
Rafael: Falhas de mercado? O que são?
Beatriz: São situações onde o mercado, por si só, não consegue ser eficiente ou justo. Por exemplo, uma fábrica que polui um rio está a impor um custo à sociedade que não está no preço do seu produto. O mercado, sozinho, não resolve isso.
Rafael: E o que faz o Estado, então? Impõe multas, cria leis?
Beatriz: Exato. O Estado intervém com três grandes objetivos em mente. Primeiro, a Eficiência: garantir que os recursos são bem usados, como no caso da poluição. Segundo, a Equidade: tentar distribuir a riqueza de forma mais justa, através de impostos e apoios sociais. E terceiro, a Estabilidade.
Rafael: Estabilidade? O que significa isso na economia?
Beatriz: Significa promover o pleno emprego, manter os preços estáveis para evitar uma inflação galopante e garantir que a economia do país tem um crescimento saudável e equilibrado. E é sobre isso, sobre os altos e baixos da economia — os chamados ciclos económicos — que podemos falar a seguir.
Rafael: Ok, Beatriz, então no último segmento falámos de como os mercados são eficientes. Parecem quase mágicos a organizar tudo. Mas... nem sempre funcionam na perfeição, pois não?
Beatriz: Exatamente, Rafael. E é aí que entra a política económica. Pensa no mercado como um motor de carro muito potente. É fantástico, mas precisa de um condutor, de óleo, de manutenção... precisa de alguém que o guie e corrija quando algo corre menos bem.
Rafael: E esse condutor é o Estado? Achei que o Estado só atrapalhava a economia.
Beatriz: Essa é uma ideia comum, mas não é bem assim. O Estado tem três funções principais, quase como se tivesse três chapéus diferentes.
Rafael: Três chapéus? Gosto dessa analogia. Quais são?
Beatriz: O primeiro é o chapéu da **alocação**. O Estado fornece coisas que o mercado não forneceria sozinho. Pensa na iluminação pública ou na defesa nacional. Não dá para vender uma lâmpada de rua a cada pessoa, certo?
Rafael: Certo, seria um caos. E o segundo chapéu?
Beatriz: É o da **distribuição**. O objetivo aqui é tornar a sociedade mais justa. O Estado usa impostos e transferências sociais, como o subsídio de desemprego ou as pensões, para redistribuir a riqueza e garantir que ninguém fica para trás.
Rafael: Faz sentido. E o terceiro?
Beatriz: O terceiro é o chapéu da **estabilização**. A economia tem altos e baixos, como uma montanha-russa. O Estado tenta suavizar essas curvas... evitar que a subida seja demasiado íngreme e que a descida seja assustadora.
Rafael: Portanto, alocativa para fornecer o essencial, distributiva para a justiça e estabilizadora para evitar o pânico na montanha-russa. É isso?
Beatriz: Perfeito! O objetivo final de tudo isto é um só: melhorar o bem-estar da sociedade.
Rafael: Ok, então o Estado intervém com estes três objetivos. E o que é que a política económica tenta alcançar concretamente? Quais são as metas?
Beatriz: Ótima pergunta. São também três grandes metas, que estão interligadas. A primeira é a **eficiência económica**.
Rafael: Isso soa-me familiar. É sobre usar bem os recursos, sem desperdício?
Beatriz: Precisamente. Produzir o máximo possível com o mínimo de recursos. A segunda meta é a **equidade social**. É o lado justo da economia, garantir que o bolo é distribuído de uma forma que a sociedade considera aceitável.
Rafael: A tal função distributiva que falaste.
Beatriz: Exato. E, por fim, a terceira meta é a **estabilidade económica**. Isto significa manter os preços estáveis, ou seja, controlar a inflação, e ter o pleno emprego. Ninguém quer preços a disparar ou desemprego elevado.
Rafael: Eficiência, equidade e estabilidade. Parece um equilíbrio difícil de conseguir. É quase como fazer malabarismo com três bolas em chamas.
Beatriz: É uma excelente imagem! E é mesmo isso. A política económica é a arte de tentar manter estas três bolas no ar ao mesmo tempo, o que nem sempre é fácil. Muitas vezes, melhorar uma pode piorar outra.
Rafael: E que ferramentas é que o Estado usa para fazer esse malabarismo? Como é que, na prática, ele mexe na economia?
Beatriz: Basicamente, tem duas grandes caixas de ferramentas. A primeira é a **política orçamental**, também chamada de fiscal. E a segunda é a **política monetária**.
Rafael: Política orçamental... isso tem a ver com o Orçamento do Estado, certo? Aquilo que ouvimos nas notícias todos os anos.
Beatriz: Exatamente. O Orçamento do Estado é o plano anual do governo. Diz onde vai buscar o dinheiro — as receitas, como os impostos — e onde o vai gastar — as despesas, como salários, pensões e investimentos em estradas ou hospitais.
Rafael: Impostos como o IVA que pagamos nas compras ou o IRS que descontamos do salário?
Beatriz: Sim! Esses são os impostos indiretos e diretos. E as despesas são tudo, desde pagar aos médicos e professores até construir uma nova linha de comboio. O governo usa estas receitas e despesas para influenciar a economia.
Rafael: Ok, essa é a primeira caixa de ferramentas. E a segunda? Política monetária?
Beatriz: A política monetária tem a ver com o dinheiro. Mais especificamente, com a quantidade de dinheiro e crédito que circula na economia. E quem está no comando aqui não é o governo, mas sim o Banco Central.
Rafael: O Banco de Portugal, no nosso caso, que faz parte do sistema do Euro.
Beatriz: Exato. O Banco Central Europeu, em conjunto com os bancos centrais nacionais, usa instrumentos como as taxas de juro para controlar a inflação e manter a estabilidade dos preços. Se os preços estão a subir muito, eles podem aumentar as taxas de juro para “arrefecer” a economia.
Rafael: Entendi. Então, de um lado o governo com o orçamento, e do outro o Banco Central com a moeda e os juros. Duas forças a tentar guiar a economia.
Beatriz: Precisamente. Trabalham em conjunto, ou pelo menos deveriam, para alcançar aqueles três grandes objetivos de que falámos.
Rafael: Vamos focar-nos na política orçamental, então. Mencionaste que o governo pode aumentar ou diminuir despesas e impostos. Podes dar um exemplo prático?
Beatriz: Claro. Imagina que a economia está a abrandar. Há uma recessão, o desemprego está a aumentar... as pessoas estão com medo de gastar.
Rafael: Um cenário pessimista.
Beatriz: Sim. Nesse caso, o governo pode usar uma **política orçamental expansiva**. A ideia é dar um empurrão à economia. Para isso, pode fazer duas coisas: aumentar a despesa pública ou reduzir os impostos.
Rafael: Como é que isso ajuda?
Beatriz: Bem, se o governo gasta mais, por exemplo, a construir uma ponte, está a contratar empresas e trabalhadores. Isso cria emprego e rendimento. Se reduz os impostos, sobra mais dinheiro no bolso das famílias e das empresas para gastarem ou investirem.
Rafael: Ah, ok. Ambas as ações injetam dinheiro na economia e estimulam a procura. E o oposto também funciona? Se a economia estiver sobreaquecida?
Beatriz: Sim! Se a inflação estiver muito alta, significa que há dinheiro a mais a perseguir bens a menos. O governo pode então aplicar uma **política orçamental restritiva**. Faz o contrário: corta na despesa pública ou aumenta os impostos.
Rafael: Para retirar dinheiro da circulação e acalmar as coisas. Parece simples na teoria.
Beatriz: Na teoria, sim. Na prática, é mais complicado. É preciso acertar no timing e na dose certa. E não podemos esquecer a famosa lei fundamental da economia...
Rafael: Que é...?
Beatriz:
Rafael: Ok, Beatriz, essa ideia de que a macroeconomia olha para o país como um todo faz muito sentido. Mas... os países não vivem isolados, pois não?
Beatriz: De maneira nenhuma, Rafael. E essa é a ponte perfeita para o nosso próximo grande tema: a Economia Internacional. É aqui que vemos como os países interagem uns com os outros.
Rafael: Interagem tipo... a comprar e a vender coisas?
Beatriz: Exatamente. E muito mais! Pensa nisto: como é que um país controla todo o dinheiro que entra e sai? Seja de exportações, investimentos, ou até do dinheiro que um emigrante manda para a família?
Rafael: Uau, parece uma tarefa gigante. Deve ser um caos de papelada.
Beatriz: Seria, se não existisse a Balança de Pagamentos. É como se fosse o extrato bancário de um país. Regista todas, mas mesmo todas, as transações com o resto do mundo.
Rafael: Ok, um extrato bancário gigante. E como é que se organiza?
Beatriz: Basicamente, em três grandes contas. A Conta Corrente, que inclui bens e serviços... o nosso comércio. A Conta de Capital, para coisas mais específicas. E a Conta Financeira, que lida com investimentos.
Rafael: Conta Corrente, Capital e Financeira. Percebido. O objetivo é que o saldo final seja zero, certo? Equilíbrio?
Beatriz: Esse é o ideal! Se o saldo global é positivo, entra mais dinheiro do que sai. Se for negativo, temos um défice. A meta é sempre o equilíbrio.
Rafael: Faz sentido. E sobre o comércio... sempre ouvi dizer que é bom para todos, mas e se um país for melhor a produzir TUDO? O outro país não fica a perder?
Beatriz: Essa é uma pergunta brilhante! E a resposta é surpreendente: não, não fica a perder. E a culpa é de um senhor chamado David Ricardo e da sua ideia de vantagem comparativa.
Rafael: Vantagem comparativa... Soa importante. E complicado.
Beatriz: Mas não é! Pensa assim: mesmo que tu sejas o melhor cozinheiro E o melhor a lavar a loiça do mundo, compensa-te pagar a alguém para lavar a loiça para que possas passar mais tempo a cozinhar, que é onde és excecionalmente bom.
Rafael: Ah! Porque o meu tempo a cozinhar vale mais! Nunca pensei que lavar a loiça tivesse a ver com economia internacional.
Beatriz: Pois tem! Cada país deve focar-se em produzir aquilo em que tem o menor custo de oportunidade. Ou seja, aquilo de que abdica menos para produzir. Ao especializarem-se e trocarem, ambos os países acabam por conseguir consumir mais do que conseguiriam sozinhos. É quase... mágico.
Rafael: Ok, a especialização é a chave. Mas quando Portugal vende sapatos aos Estados Unidos, os americanos não pagam em euros, pois não? Como é que essa troca de moedas funciona?
Beatriz: Excelente ponto. Entramos no Mercado Cambial. É um mercado gigante onde as moedas são trocadas. E o preço de uma moeda noutra chama-se taxa de câmbio.
Rafael: Tipo, 1 euro vale 1 dólar e 10 cêntimos. É isso?
Beatriz: Exatamente isso. E essa taxa muda todos os dias, com base na procura e na oferta. Se muita gente quiser comprar euros, o euro valoriza. Se quiserem vender, ele desvaloriza. Isso afeta diretamente o preço do que exportamos e importamos.
Rafael: Parece um sistema complexo e um pouco frágil. Não há ninguém a organizar isto tudo? Uma espécie de árbitro global?
Beatriz: Felizmente, há. Existem vários organismos internacionais que ajudam a manter a estabilidade. Temos o FMI, o Fundo Monetário Internacional, que ajuda países em dificuldades financeiras.
Rafael: O FMI é tipo o pronto-socorro das economias, então.
Beatriz: É uma boa analogia! Depois tens o Banco Mundial, que financia projetos de desenvolvimento para combater a pobreza. E a OMC, a Organização Mundial do Comércio, que define as regras do jogo comercial e resolve disputas.
Rafael: FMI, Banco Mundial, OMC... são os grandes jogadores. É o que chamamos de globalização?
Beatriz: Em grande parte, sim. A globalização é este processo de integração crescente. Mais comércio, mais investimento entre países, difusão de tecnologia... Tem imensos benefícios, como maior eficiência e acesso a novos produtos. Mas também tem riscos, como o aumento das desigualdades.
Rafael: Portanto, o grande resumo é que a economia internacional é uma dança complexa entre comércio, dinheiro e cooperação. O objetivo é que todos ganhem, mas é preciso ter regras para garantir que o jogo seja justo.
Beatriz: Perfeito. A chave é a cooperação. Promover o comércio livre e a estabilidade para construir um mundo mais próspero. E é essa estabilidade que por vezes é abalada, o que nos leva diretamente aos ciclos económicos...
Rafael: ...e é por isso que entender o crescimento a longo prazo é tão crucial. Mas Beatriz, a economia não cresce em linha reta, pois não? Parece mais uma montanha-russa.
Beatriz: Exato, Rafael! E essa "montanha-russa" é o que chamamos de ciclo económico. É o nosso último grande tópico de hoje.
Rafael: Ciclo económico. Parece algo que se repete de forma previsível. É assim?
Beatriz: Nem por isso. Os ciclos não têm duração fixa nem são perfeitamente regulares. Mas têm fases que conhecemos: expansão, pico, recessão e depois a recuperação.
Rafael: E o que acontece em cada fase?
Beatriz: Na expansão, tudo sobe: o PIB, o emprego, o investimento... As pessoas consomem mais. No pico, a festa está no auge. Depois, vem a recessão... e o cenário inverte-se.
Rafael: Onde o desemprego aumenta e o investimento cai. E a recuperação é quando a economia começa a sair do buraco.
Beatriz: Precisamente. Pensa nisto: o ciclo afeta diretamente o teu bolso e o emprego à tua volta.
Rafael: Então estamos à mercê destas ondas? Ou podemos fazer alguma coisa para as acalmar?
Beatriz: Podemos! É aqui que entram as políticas económicas. Temos duas ferramentas principais: a política orçamental e a política monetária.
Rafael: A orçamental é do governo, certo? Com impostos e despesas.
Beatriz: Isso mesmo. Numa recessão, o governo pode gastar mais ou cortar impostos. É uma política expansiva para dar um empurrão à economia.
Rafael: E quando a economia está a sobreaquecer, com inflação alta?
Beatriz: Aí aplica-se uma política restritiva. O governo trava os gastos ou sobe impostos. É como pôr um pouco de gelo na bebida para não ferver.
Rafael: Gosto da analogia. E a política monetária?
Beatriz: Essa é do Banco Central. Eles mexem nas taxas de juro. Juros baixos estimulam a economia, juros altos arrefecem-na.
Rafael: Falaste do desemprego. Ele sobe e desce com o ciclo, mas há mais do que isso, não é?
Beatriz: Sim. Há o desemprego cíclico, que acompanha a recessão. Mas também existe o estrutural, que acontece por mudanças na tecnologia. Esse não desaparece só porque a economia melhora.
Rafael: E há alguma forma de prever como o desemprego reage ao crescimento do PIB?
Beatriz: Existe uma relação, conhecida como Lei de Okun. De forma simples, diz que quando o PIB cai, o desemprego sobe mais do que proporcionalmente. Mostra o custo humano de uma recessão.
Rafael: Foi uma viagem e tanto. Qual é a ideia-chave para levarmos para casa sobre os ciclos económicos?
Beatriz: A ideia-chave é esta: a economia move-se em ciclos, isso é inevitável. Mas com as políticas certas, podemos torná-los menos severos. O objetivo é ter um crescimento mais estável, com emprego e preços sob controlo.
Rafael: Perfeito! Foi uma ótima forma de fechar a nossa conversa. Beatriz, muito obrigado mais uma vez pela clareza e pela aula fantástica.
Beatriz: O prazer foi meu, Rafael. E obrigado a todos por nos ouvirem!
Rafael: E a vocês, que estiveram connosco, não se esqueçam de subscrever o Studyfi Podcast. Até à próxima!
Beatriz: Até à próxima!