A era digital transformou radicalmente a forma como interagimos com o mundo, com a mídia e, crucialmente, como o gênero é construído e percebido. Este artigo explora a Comunicação na Era Digital e Gênero, analisando como a revolução tecnológica redefiniu o consumo midiático, o surgimento de narrativas transmídia e o impacto econômico, bem como as teorias feministas que abordam a representação na mídia. Uma análise aprofundada é essencial para compreender este panorama em constante mudança.
O Consumo Midiático na Era Digital: Uma Transformação Radical
O século XXI trouxe consigo uma reconfiguração total do consumo midiático. As teorias tradicionais sobre o papel da comunicação, válidas no século XX, enfrentam agora um cenário de constantes mudanças. A chegada da Internet não só criou novas mídias, mas também borrou as fronteiras entre as já existentes, tornando cada vez mais difícil uma separação clara.
Convergência Midiática: Conteúdos em Toda Parte
Este processo é conhecido como convergência. Implica que os mesmos conteúdos podem ser acessíveis por diferentes mídias e, inversamente, que cada dispositivo nos permite acessar múltiplas plataformas. A diferença entre um telefone, uma Smart TV ou um tablet é cada vez menor, afetando profundamente as audiências. Estas estão mais fragmentadas do que nunca, mas, ao mesmo tempo, impõe-se o consumo simultâneo de várias mídias e a criação de sinergias entre plataformas.
As Novas Telas e Seus Usos
Os especialistas distinguem como as audiências utilizam as telas, tanto dentro quanto fora do lar:
- Telas Grandes: Como televisores ou projetores, são usadas preferencialmente para a visualização direta de conteúdos (televisão convencional, streaming, outros dispositivos). Seu objetivo é a imersão principal.
- Telas Pequenas: Utilizadas como complemento ou apoio do que é consumido nas grandes. Podem melhorar a funcionalidade (enviar conteúdo para a TV) ou facilitar o consumo social (comentar em redes, buscar informações). Este uso pode ser:
- Sincrônico: Simultâneo ao consumo na tela grande.
- Diacrônico: Anterior ou posterior à visualização, mas referente ao mesmo conteúdo.
- Telas Médias: Tablets e computadores portáteis, especialmente os pequenos. Permitem um uso indistinto como telas grandes ou pequenas, mas não simultâneo. Oferecem mobilidade para consumir conteúdo audiovisual ou para um consumo social, embora alternar entre funções possa ser mais complexo.
Lacuna Geracional no Consumo de Mídia
Existe uma profunda lacuna geracional na forma de consumir mídia, muito maior do que em épocas anteriores. Distinguem-se dois grandes grupos de consumidores:
- Nativos Digitais: Aqueles que nasceram ou cresceram convivendo com a Internet. Costumam consumir plataformas modernas e têm hábitos multitarefa.
- Imigrantes Digitais: Aqueles que tiveram que se adaptar a essas mudanças durante sua vida adulta. Frequentemente mantêm hábitos de consumo mais tradicionais.
Antigos Consumidores: Fidelidade ao Tradicional
Os antigos consumidores, especialmente os maiores de 65 anos, mantêm hábitos semelhantes aos de décadas anteriores. Consomem preferencialmente mídias tradicionais, como a televisão, e o fazem durante muitas horas por dia. Tendência a assistir televisão em um aparelho de TV e seu consumo midiático costuma ser uma atividade exclusiva, não multitarefa. Posicionam-se claramente como receptores de produtos, não como criadores.
Novos Consumidores: Multitarefa e Fragmentados
Os novos consumidores caracterizam-se pelo abandono relativo de plataformas tradicionais. A televisão continua sendo consumida, mas em menor medida e em combinação com plataformas de streaming. Dedicam grande parte do seu tempo a navegar pela Internet, redes sociais e aplicativos de mensagens. Sua característica distintiva é o consumo multitarefa: raramente o conteúdo audiovisual é uma atividade exclusiva, mas sim combinado com outras atividades em suas telas pequenas. Contrário a algumas teorias iniciais, isso não resultou em uma menor capacidade de atenção.
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Narrativas Transmídia: Histórias Além de Uma Única Tela
A forma de contar histórias evoluiu significativamente com a era digital. As marcas e criadores exploram agora modelos narrativos que envolvem a audiência de maneiras mais profundas.
Do Multiplataforma à Transmídia
A primeira fase de expansão de conteúdos foi o multiplataforma ou cross-media, onde os conteúdos eram adaptados a diferentes mídias (ex. Disney: filme, livro, videogame). No entanto, tratava-se de contar a mesma história em diferentes formatos. A segunda fase, e a que exploramos hoje, são as narrativas transmídia.
Este termo, cunhado por Henry Jenkins, descreve um tipo de narrativa onde a história é distribuída em várias mídias, sendo imprescindível consumir diferentes versões em várias plataformas para obter uma visão completa. Cada uma oferece um fragmento da experiência, buscando criar sinergias sem que uma mídia prevaleça sobre a outra.
O Exemplo de Pokémon: Um Universo em Expansão
Jenkins usa a franquia Pokémon como um claro exemplo:
- Iniciou como um videogame (Pokémon Rojo y Azul) que forçava a troca entre jogadores para completar coleções.
- Expandiu-se com novas edições, séries de televisão, filmes, livros e quadrinhos.
- Pokémon GO (2016) deu o salto para os celulares com realidade aumentada e geolocalização.
- A complexidade do universo levou os jogadores a colaborar em enciclopédias online, demonstrando o trabalho colaborativo das audiências ativas.
Características Fundamentais das Narrativas Transmídia
As narrativas transmídia configuram-se em torno de dois eixos principais:
- A expansão por diferentes mídias.
- A colaboração com a audiência.
Segundo Scolari, existem outras características essenciais:
- Estendem-se por meio de técnicas de promoção virais: Confiam na ajuda das audiências e, sobretudo, dos fãs, buscando elementos que facilitem a spreadability (capacidade de expansão).
- Continuidade dentro do universo de ficção: A coerência narrativa é chave em todas as plataformas.
- Extraibilidade: Facilidade para que os fãs peguem elementos da história e os reinterpretem ou os usem em suas próprias criações.
- Serialidade assimétrica: As diferentes edições ou partes da história não têm o mesmo peso ou formato, mas juntas constroem a totalidade.
Tipos de Consumidores na Era Transmídia
Para o sucesso das narrativas transmídia, os desenvolvedores devem entender sua audiência e seus segmentos:
- Consumidores Casuais (Casual Consumer): Interessados na franquia, mas sem um papel ativo em sua difusão ou criação de conteúdo. São a maioria e precisam ser mobilizados com campanhas publicitárias.
- Consumidores Hardcore (Hardcore Consumer): Um grupo reduzido que compra quase todos os produtos e são uma fonte confiável de receita. Daqui surgem os prosumidores (produtores + consumidores).
- Pioneiros (Early Adopters): Os primeiros a descobrir uma franquia ou dispositivo, cruciais em tecnologia para proporcionar uma base de clientes inicial e oferecer feedback.
- Líderes de Opinião (Curator): Indivíduos cuja opinião é respeitada e seguida pelo público, marcando tendências e determinando o sucesso de um lançamento (jornalistas, youtubers, podcasters).