A Anestesiologia é uma das áreas mais fascinantes e cruciais da medicina, combinando ciência, tecnologia e um profundo senso de ética para garantir a segurança e o conforto dos pacientes. Para estudantes e profissionais, compreender os pilares que sustentam esta especialidade – sua história, prática e, acima de tudo, a ética envolvida – é fundamental. Este artigo detalha esses aspectos, explorando desde as origens milenares até as regulamentações modernas e as personalidades que moldaram a anestesiologia como a conhecemos hoje.
Ética e Responsabilidade na Anestesiologia Moderna
A prática da anestesiologia é regida por um rigoroso código de ética e normas que visam a segurança do paciente e a responsabilidade profissional. É essencial que todo anestesiologista, e em especial os médicos em especialização, compreendam suas obrigações e direitos.
Resoluções do CFM e a Segurança Anestésica
A segurança no ato anestésico é primordial. A resolução do CFM que orienta sobre este tema e sua segurança é a Res. CFM nº 2.174/2017, publicada em 27 de fevereiro de 2018. Esta normativa estabelece diretrizes claras para a prática, garantindo que os procedimentos sejam realizados com o máximo de cuidado e monitoramento.
Responsabilidade do Médico em Especialização
Um médico em especialização possui direitos e deveres específicos que devem ser rigorosamente seguidos. É importante ressaltar que um médico em especialização não pode realizar procedimentos sozinho sem orientação de seu instrutor. Ele responde de forma regular por suas responsabilidades médicas e não pode transferir essa responsabilidade para o preceptor, mesmo estando em fase de aprendizado. Ele não é considerado perito por estar aprendendo a especialidade.
São direitos dos Médicos em especialização:
- Participar de atividades teórico-práticas, com 80 a 90% da carga horária em treinamento prático e 10 a 20% em atividades teóricas.
- Ter direito a transferência entre Centros de Ensino e Treinamento (CET), dependendo da motivação.
- Usufruir de 01 (um) mês de férias em cada ano de especialização.
- Ter afastamento para tratamento de saúde e licença maternidade, sendo o período correspondente cumprido ao final para completar os 36 meses previstos.
São deveres dos Médicos em especialização:
- Estar regularmente inscrito no Conselho Regional de Medicina (CRM) da jurisdição de sua atividade de especialização.
- Cumprir as normativas do Conselho Federal de Medicina (CFM) e os protocolos e diretrizes da instituição.
- Abster-se de utilizar qualquer tipo de droga psicoativa, lícita ou ilícita, no ambiente hospitalar, ou estar sob seu efeito durante as atividades do CET.
O Ato Médico e suas Limitações
O ato médico possui diversas nuances e restrições para garantir a qualidade e a segurança. É fundamental saber que:
- Não é permitida a anestesia simultânea em mais de um paciente.
- A avaliação pré-anestésica não pode ser dispensada em procedimentos eletivos.
- Um médico não pode divulgar-se especialista antes do término de sua especialização e obtenção do título.
Bioética em Anestesiologia: Princípios e Erro Médico
A bioética oferece uma estrutura para discussões morais na medicina. Na anestesiologia, seus princípios são a base para a tomada de decisões.
Os Pilares da Bioética
Os princípios fundamentais da bioética incluem:
- Autonomia: Respeito à capacidade do paciente de decidir sobre seu próprio tratamento.
- Justiça: Distribuição equitativa de recursos e tratamentos.
- Beneficência: Agir sempre no melhor interesse do paciente.
- Não-maleficência: Evitar causar dano ao paciente. (Os dois últimos, Beneficência e Não-maleficência, são princípios de Hipócrates).
Entendendo o Erro Médico
A distinção entre um resultado adverso e um erro médico é crucial:
- Acidente imprevisível: Mau resultado, mas impossível de prever e evitar. Não houve erro.
- Resultado incontrolável: Mau resultado, mas inevitável e sem solução conhecida. Não houve erro.
- Imperícia: Despreparo ou insuficiência de conhecimento. Pode haver cautela, mas o profissional não sabe fazer. Houve erro.
- Imprudência: Intempestividade, precipitação e insensatez. O profissional sabe fazer, entende o risco, mas não foi cauteloso. Houve erro.
- Negligência: Indolência, inércia e passividade. O profissional sabe fazer, ignorou o risco e foi omisso. Houve erro.
Protocolos Essenciais: Monitores e Documentação
A prática anestésica moderna exige monitoramento constante e documentação detalhada para a segurança do paciente e respaldo legal do profissional.
Monitores Obrigatórios Durante a Anestesia
Para a realização segura do ato anestésico, a Resolução CFM 2.174/2017 exige a utilização de:
- Pressão arterial: Monitoramento contínuo.
- Oxímetro de pulso: Para saturação de oxigênio.
- Monitor cardíaco: Eletrocardiograma (ECG).
- Termômetro: Obrigatório em cirurgias com duração superior a 60 minutos, em pacientes com risco de hipertermia maligna, síndrome neuroléptica, recém-nascidos e prematuros.
- Capnógrafo: Obrigatório em ventilação arterial ou exposição a desencadeante de hipertermia maligna.
Monitores Recomendados
Além dos obrigatórios, outros monitores são fortemente recomendados para otimizar a segurança:
- Analisador de gases (diferente do capnógrafo, que monitora gases frescos).
- Monitor de nível de consciência (como o BIS).
- Monitor de bloqueio neuromuscular (TOF).
- Pressão arterial invasiva (PAI), cateteres e ultrassonografia (USG).
Monitoramento na Sala de Recuperação Pós-Anestésica (SRPA)
Na SRPA, o paciente deve ser monitorizado para:
- Pressão arterial, cardioscopia, saturação de oxigênio, temperatura, nível de consciência, dor, movimento e náuseas/vômitos. A alta da SRPA é um ato médico exclusivo.
Documentos Obrigatórios na Anestesia
Uma documentação completa e correta é indispensável:
- Avaliação pré-anestésica (APA): Essencial para planejamento e segurança.
- Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE): Específico para cada procedimento, mencionando riscos, em linguagem clara e acessível, com instruções das técnicas anestésicas e colheita de assinaturas.
- Ficha de anestesia: Registro da técnica utilizada, monitores, linha do tempo com sinais vitais (máximo a cada 10 minutos para parâmetros básicos, 15 minutos para invasivos e avançados), registro das medicações e tempos importantes dos atos.
- Documento pós-anestésico: Registro da evolução do paciente na SRPA.
Uma Viagem no Tempo: A História da Anestesiologia
A história da anestesiologia é uma jornada fascinante, repleta de descobertas e inovações que transformaram a medicina.
Antiguidade: Alívio da Dor antes da Ciência
Desde a antiguidade, a busca pelo alívio da dor tem sido uma constante na humanidade. Civilizações antigas utilizavam:
- Acupuntura (China, 6.000 a.C.).
- Compressão das artérias carótidas (Assíria, 1.000 a.C.).
- Compressas de gelo e neve (Hipócrates, 460-377 a.C.).
- Esponjas soporíferas (séculos IX-XII).
- Compressão de troncos e raízes nervosas (séculos XIV-XVI).
- Bebidas alcoólicas como rum, vinho, uísque, conhaque e laudano (ópio + vinho).
Naquela época, a dor e a doença eram frequentemente relacionadas a causas sobrenaturais, e o uso de produtos naturais para minimizar a dor podia ser interpretado como magia ou bruxaria pela Santa Inquisição.
Os Primórdios dos Anestésicos Modernos
O século XIX marcou o início da anestesia como prática médica:
- Óxido Nitroso: Descoberto por Joseph Priestley (1776), Sir Humphry Davy (1800) observou seu efeito hilariante. Foi usado recreativamente na era Vitoriana e Horace Wells (1845) tentou, sem sucesso, demonstrar seu efeito anestésico.
- Éter: A síntese do éter foi descrita por Valerius Cordus (1515-1544). Paracelso (1493-1543) observou sua ação anestésica em galinhas (1540). Crawford Williamson-Long (1842) removeu tumores sob inalação de éter, mas William Thomas Green Morton entrou para a história em 16 de outubro de 1846, ao administrar éter com sucesso no Massachusetts General Hospital, em Boston. O cirurgião John Collins Warren exclamou: “Cavalheiros, isso não é uma farsa!”. O nome “Anestesia” foi sugerido por Oliver Wendell Holmes.
- No Brasil: Em 25 de maio de 1847, Roberto Jorge Haddock Lobo realizou a primeira anestesia geral com éter no Hospital Militar do Rio de Janeiro.
- Clorofórmio: Descoberto por Samuel Guthrie (1831), foi popularizado por James Young Simpson (1847) e administrado por John Snow na Rainha Vitória durante o nascimento do Príncipe Leopold (1853) e da Princesa Beatrice (1857).
A Evolução do Profissionalismo e Agentes Anestésicos
A complexidade cirúrgica crescente demandou o surgimento de especialistas:
- Morfina: Isolada por Friedrich Sertürmer (1804), seu uso foi impulsionado pela agulha hipodérmica (Charles Pravaz e Alexander Wood, 1853). Eficaz na dor, mas altamente viciante (