As Teorias Críticas: Ciborgues e Neoliberalismo exploram duas forças transformadoras do final do século XX. Por um lado, o "Manifesto Ciborgue" de Donna Haraway propõe uma nova visão da identidade e da política através da figura do ciborgue. Por outro, analisa-se a ascensão do neoliberalismo no Reino Unido e nos Estados Unidos, revelando como reconfigurou o poder, a sociedade e a economia. Este artigo detalha essas ideias para uma compreensão aprofundada.
O Manifesto Ciborgue de Donna Haraway: Identidade e Ruptura
O "Manifesto Ciborgue" de Donna Haraway, escrito no final do século XX, é uma obra fundamental que entrelaça ciência, tecnologia e feminismo socialista. Haraway propõe o ciborgue como um mito de identidade política, um híbrido de máquina e organismo, e uma criatura de realidade social e ficção. A autora busca um "sonho irônico de uma linguagem comum para as mulheres no circuito integrado".
O ciborgue é uma imagem condensada de imaginação e realidade material, crucial para a transformação histórica. Haraway agradece a escritoras de ficção científica como Joanna Russ, Samuel R. Delany e Octavia Butler, à antropóloga Mary Douglas por seu estudo das fronteiras corporais, e a feministas francesas como Luce Irigaray e Monique Wittig por seu foco na encarnação e fragmentação do corpo.
Crítica a Feminismos Tradicionais e a "Sister Outsider"
Haraway critica algumas feministas radicais norte-americanas, como Susan Griffin, Audre Lorde e Adrienne Rich. Ela aponta que estas muitas vezes restringem a concepção de um "corpo amigável" e uma "linguagem política" ao insistir no orgânico em oposição ao tecnológico. Seus sistemas simbólicos, como o ecofeminismo, podem ser percebidos como ideologias opositoras que não abordam plenamente o capitalismo tardio e as máquinas.
Em contraste, Haraway abraça as possibilidades de romper as distinções claras entre organismo e máquina. Propõe uma política do ciborgue que celebra a "poluição pessoal e tecnológicopolítica" como fonte de novas geometrias de possibilidade. As "mulheres de cor" são apresentadas como identidades ciborgues, uma subjetividade poderosa nascida da fusão de identidades exteriores e estratificações histórico-políticas complexas. Audre Lorde, com sua obra Sister Outsider, captura esse tom, referindo-se à mulher estrangeira, vista como um inimigo, mas que na realidade representa uma força de trabalho preferida nas indústrias de alta tecnologia, como as jovens coreanas na eletrônica. Essas mulheres, muitas vezes educadas para o "circuito integrado", subvertem o estereótipo do "primitivo oral" através da lectoescrita, crucial para sua sobrevivência e poder.
A Escrita Ciborgue e a Subversão de Mitos
A escrita ciborgue não busca uma inocência original ou uma totalidade pré-linguística. Em vez disso, concentra-se no poder para sobreviver "empunhando as ferramentas que marcam o mundo e que as marcaram como alteridade". Essas ferramentas são histórias, contos recontados que invertem e deslocam dualismos hierárquicos. Ao reescrever os mitos de origem, os autores ciborgues subvertem os pilares da cultura ocidental, especialmente aqueles construídos por biotecnologia e microeletrônica que "textualizam" nossos corpos. Um exemplo é a reescrita da história da Malinche por Cherrie Moraga em Loving in the War Years, onde a linguagem "emendada" de Moraga (inglês e espanhol) constrói identidades poderosas sem reivindicar uma língua original.
Ironia, Blasfêmia e a Ontologia do Ciborgue
Haraway utiliza a ironia e a blasfêmia como estratégias políticas em seu "irônico mito político". A blasfêmia, que implica levar as coisas muito a sério, "protege da maioria moral interna" e "insiste na necessidade comunitária". A ironia lida com contradições que não levam a totalidades maiores, abraçando o humor e a seriedade. Em sua fé irônica, o ciborgue é a imagem central.
Somos "quimeras, híbridos teorizados e fabricados de máquina e organismo". Essa ontologia ciborgue determina nossa política, sendo uma imagem condensada de imaginação e realidade material. O ciborgue não tem uma história de origem no sentido ocidental, evitando o "mito da unidade original" e a "mãe fálica". Esquiva-se da identificação com a natureza e se posiciona do lado da parcialidade, da ironia, da intimidade e da perversidade. É "opositor, utópico e de nenhuma maneira inocente", situando-se fora de uma narrativa edípica ou da "história da salvação".
Rupturas de Fronteiras Chave na Era do Ciborgue
Haraway identifica três rupturas limítrofes cruciais que são fundamentais para entender a política do ciborgue:
- Entre o humano e o animal: As fronteiras tradicionais se desvaneceram. A linguagem, o uso de ferramentas, o comportamento social e os eventos mentais já não separam de forma convincente humanos e animais. Os movimentos de direitos dos animais não negam a singularidade humana, mas reconhecem a conexão através da desacreditada divisão entre natureza e cultura. O ciborgue surge onde essa fronteira é transgredida, assinalando "acoplamentos apertados inquietantes e prazerosos".
- Entre (organismos) humanos/animais e máquinas: As máquinas pré-cibernéticas se distinguiam por sua falta de autonomia e decisão. No entanto, as máquinas do final do século XX tornaram "ambígua a diferença entre o natural e o artificial, entre o corpo e a mente". São "inquietantemente vivas" enquanto os humanos se tornam "aterrorizantemente inertes". A "textualização" de tudo na teoria pós-estruturalista e pós-modernista, embora criticada por seu "desprezo utópico pelas relações vivas de dominação", sublinha que "nenhuma construção é total".
- Entre o físico e o não físico: Os limites se tornaram "muito imprecisos". A física quântica e o princípio da incerteza, junto com o pós-modernismo, minam a certeza do que conta como natureza. As máquinas microeletrônicas, ubíquas e invisíveis, zombam da espiritualidade. O "chip de silício é uma superfície para escrever", marcando a "interferência final das partituras nucleares". Essa ruptura "radical" questiona a existência abstrata e a "ação política significativa" através do texto, abrindo um espaço de "vida ou morte" para as respostas.
Neoliberalismo: Ascensão e Consolidação na Grã-Bretanha e Estados Unidos
O neoliberalismo se consolidou a partir da década de 1970, em um contexto de crise econômica e um profundo questionamento do Estado de bem-estar social. Este fenômeno não foi homogêneo, apresentando particularidades na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos.
O Caso da Grã-Bretanha: Margaret Thatcher e a Transformação Social
Na Grã-Bretanha, o Estado de bem-estar social, construído após a Segunda Guerra Mundial, enfrentava fortes críticas. O Financial Times e outros meios promoviam o individualismo e a liberdade em oposição à "ineptidão burocrática" e ao "poder sindical". Instituições como o Institute of Economic Affairs e o Centre for Policy Studies, junto com a imprensa, impulsionaram as ideias neoliberais. A ascensão de uma cultura pop e o ceticismo juvenil prepararam o terreno para o radicalismo pós-moderno e a desconfiança em relação às metanarrativas.
A crise de acumulação de capital nos anos 70, com alta inflação e desemprego ("estagflação"), foi o catalisador. As greves de mineiros de 1972 e 1974, e o "inverno do descontentamento" de 1978, enfraqueceram o governo trabalhista e a opinião pública. Margaret Thatcher chegou ao poder em 1979 com um claro mandato para "domar o poder sindical" e aplicar políticas monetaristas. Suas ações incluíram:
- Monetarismo e controle orçamentário: Elevadas taxas de juros e cortes de gastos públicos, o que levou a um aumento do desemprego (10% entre 1979-1984) e uma significativa perda de membros do Trades Union Congress. Alan Budd, assessor de Thatcher, afirmou que essas políticas buscavam "atingir os trabalhadores".
- Desmantelamento do poder sindical: A provocação da greve de mineiros de 1984, que durou quase um ano e foi finalmente derrotada, quebrou a espinha dorsal do movimento operário. A abertura à concorrência e ao investimento estrangeiro (ex. a indústria automobilística japonesa em zonas rurais com mão de obra não sindicalizada) transformou o Reino Unido em um país de salários baixos e força de trabalho "submissa".
- Privatizações massivas: British Aerospace, British Telecom, British Airways, aço, eletricidade, gás, petróleo, carvão, água e ferrovias foram vendidos. Este processo foi projetado para "engordar os cofres públicos" e "liberar o governo de obrigações onerosas". Foram oferecidos incentivos ao capital privado, inclusive subvalorizando ativos estatais. A venda de moradias públicas aos seus inquilinos também foi chave para forjar o consentimento da classe média e ampliar o número de proprietários.
- Transformação cultural: Cultivou-se uma classe média que valorizava a propriedade privada, o individualismo e as oportunidades empresariais. A desindustrialização e a expansão do mercado livre fomentaram a cultura do consumo e o endividamento. A City de Londres se manteve como centro financeiro global, convertendo o sudeste da Inglaterra em um "dinâmico centro de riqueza e poder".
Thatcher enfrentou resistência em municípios como Sheffield e Liverpool, mas conseguiu esmagá-la. O desmantelamento do Estado de bem-estar social em áreas como educação e saúde foi mais difícil devido às "atitudes enraizadas e muitas vezes tradicionais das classes média e alta". A proposta do "poll tax" (imposto regressivo per capita) provocou um grande confronto que contribuiu para sua queda política.
O Caso dos Estados Unidos: Ronald Reagan e a Restauração do Poder de Classe
Nos Estados Unidos, a guinada neoliberal também se gestou na década de 1970, influenciada pela crise fiscal da cidade de Nova York e pelo "Memorando Powell". Este último, de 1971, apontava a necessidade de o setor empresarial se organizar politicamente para contrariar o sentimento anti-corporativo. A Business Roundtable, fundada em 1972, tornou-se um eixo de ação coletiva, financiando think tanks como a Heritage Foundation e o NBER, e promovendo ideias neoliberais através de autores como Robert Nozick e Milton Friedman.
A crise fiscal de Nova York em 1975, quando os bancos de investimento se recusaram a refinanciar a dívida, levou à imposição de medidas de austeridade: congelamento salarial, cortes no emprego público e serviços sociais, e a exigência de que os sindicatos municipais investissem seus fundos de pensões em títulos da cidade. Este "golpe perpetrado pelas instituições financeiras" foi uma "primeira e decisiva batalha de uma nova guerra" para redistribuir a riqueza para as classes altas e disciplinar a força de trabalho. Políticos como William Simon, secretário do Tesouro de Ford, viram com aprovação a situação, buscando um resgate "punitivo" para evitar que outras cidades seguissem o mesmo caminho.
A eleição de Ronald Reagan em 1980 consolidou a mudança política. Suas políticas se concentraram em:
- Redução da regulamentação federal: Na indústria, meio ambiente, condições de trabalho e saúde. Foram realizados cortes orçamentários e foram nomeadas "pessoas com tendências opostas à regulamentação" em cargos chave.
- Ataque aos sindicatos: Reagan disciplinou os controladores aéreos em 1981, marcando o fim do acordo corporativo-sindical da década de 1960. O National Labour Relations Board tornou-se um "veículo para atacar e regular os direitos dos trabalhadores". A deslocalização industrial para estados do sul não sindicalizados ou para o exterior (México, sudeste da Ásia) minou o poder da força de trabalho no "rust belt".
- Reformas fiscais regressivas: Reduziu-se a alíquota de imposto de 78% para 28% para as rendas mais altas, e muitas corporações deixaram de pagar impostos. Transferiram-se ativos públicos para o domínio privado, como os benefícios de patentes farmacêuticas financiadas pelo NIH.
- Ideologia neoliberal: Promoveu-se uma "fusão complexa de monetarismo, expectativas racionais, escolha pública e políticas do lado da oferta". A ideia central era que a intervenção governamental era o problema, não a solução. Meios como The Wall Street Journal e escolas de negócios em universidades prestigiadas difundiram essas ideias, que também foram adotadas por estudantes estrangeiros que depois influenciaram seus países de origem e instituições internacionais.
O sucesso de Reagan e Thatcher foi tal que consolidaram "posições políticas, ideológicas e intelectuais minoritárias" e as tornaram dominantes. Seus legados "prenderam os políticos posteriores" como Clinton e Blair, que "não tiveram outra escolha senão deixar que o processo de restauração do poder de classe continuasse", muitas vezes às custas dos pobres, enquanto se liberava os ricos.
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Perguntas Frequentes (FAQ)
O que é o Manifesto Ciborgue de Donna Haraway?
O Manifesto Ciborgue é um ensaio de Donna Haraway de 1985 que propõe a figura do ciborgue como um mito para a identidade política. Argumenta que o ciborgue, um híbrido de máquina e organismo, pode subverter as dicotomias tradicionais e as lógicas de dominação, oferecendo novas possibilidades para o feminismo e a política.
Como o neoliberalismo se relaciona com as teorias críticas?
As teorias críticas analisam como o neoliberalismo, surgido na década de 1970, reconfigurou as estruturas de poder. Concentram-se em como líderes como Thatcher e Reagan implementaram políticas de desregulamentação, privatização e enfraquecimento sindical para restaurar o poder de classe, transformando as relações sociais e econômicas, e consolidando uma hegemonia ideológica que ainda perdura.
O que significa a "ruptura de fronteiras" na teoria do ciborgue?
A "ruptura de fronteiras" refere-se ao esmaecimento de distinções chave na era do ciborgue: entre o humano e o animal, entre organismos e máquinas, e entre o físico e o não físico. Haraway sugere que essas rupturas são prazerosas e promissoras para novas formas de identidade e organização política, desafiando os dualismos tradicionais e as narrativas de origem.
Quais foram as consequências sociais do neoliberalismo em Nova York?
A crise fiscal de Nova York nos anos 70 levou à imposição de austeridade, cortes em serviços públicos e direitos trabalhistas, e uma redistribuição da riqueza para as classes altas. Isso gerou um "ambiente social e cívico ranzinza", marginalização da classe operária e minorias, e uma "neoliberalização da cultura" que priorizou um "clima ótimo para os negócios" e o consumismo sobre o bem-estar social e a democracia local.