Intertextualidade: Teoria e exemplos

Explora a intertextualidade: suas origens com Bakhtin e Kristeva, classificação (geral, limitada, autotextualidade) e exemplos-chave. Domine este conceito fundamental!

A intertextualidade é um conceito fundamental no estudo da literatura e da comunicação, que nos permite entender como os textos não são entidades isoladas, mas se constroem em um diálogo constante com outros. Esse fenômeno abrange desde citações explícitas até ecos apenas perceptíveis, enriquecendo a experiência de leitura e revelando a complexidade da criação artística. Neste artigo, exploraremos a intertextualidade: teoria e exemplos, suas origens, classificações e como ela influencia nossa compreensão das obras literárias e artísticas.

Intertextualidade: Uma Definição Chave para Estudantes

O conceito de intertextualidade refere-se às relações que um texto mantém com outros textos. Pode manifestar-se como uma citação direta, uma alusão, uma paródia, uma reescrita, ou até mesmo a absorção e transformação de enunciados alheios em uma nova obra. Essencialmente, todo texto é um mosaico de citações, uma absorção e transformação de outros, como afirma Julia Kristeva (82: 190).

Em um nível elementar, toda relação entre dois textos tem sido definida como intertextual. No entanto, sua complexidade reside nas diversas formas em que essa relação se estabelece, não apenas entre textos literários, mas também com discursos sociais, históricos e filosóficos (Barei, p. 3).

Origens da Intertextualidade: Bakhtin e Kristeva

Para compreender plenamente a intertextualidade, é crucial remontar aos seus fundadores teóricos. Suas contribuições iniciais estabeleceram as bases para seu desenvolvimento posterior.

Mikhail Bakhtin e o Dialogismo

Os primeiros fundamentos da intertextualidade provêm da estética filosófica de Mikhail Bakhtin. Este teórico russo, contemporâneo dos formalistas, concebia o texto não como uma unidade puramente verbal, mas como uma estrutura comunicativa imersa em relações sociais (Barei, p. 4).

Bakhtin introduziu os conceitos de dialogismo e polifonia. Para ele, todo enunciado é um elo em uma cadeia complexa de outros enunciados, respondendo, refutando ou transformando os anteriores (82: 258). A obra literária é, por natureza, dialógica, pois nela se entrecruzam e respondem múltiplas vozes e perspectivas (82: 284).

  • Enunciado: Unidade da comunicação discursiva, influenciada por seu contexto social e histórico (Todorov; 81:26).
  • Polifonia: Em uma novela, a interação de vozes irredutíveis a uma mensagem homogênea. Não apenas as vozes dos personagens, mas também a do narrador e outros discursos sociais (86: 254).
  • Palavra Bivocal: Aquela que se orienta tanto ao objeto do discurso quanto ao discurso alheio, permitindo a estilização, paródia, réplica ou polêmica com outras vozes (Barei, p. 6).

Julia Kristeva e a Produtividade Textual

Julia Kristeva cunhou o termo "intertextualidade" no final da década de 1960. Ela vê a literatura como uma prática social, um trabalho sobre a palavra ou "produtividade" (Barei, p. 7). Para Kristeva, o texto é uma prática semiótica que transcende o linguístico, vinculando a língua com elementos externos a ela.

Propõe um modelo de análise que inclui:

  • Genotexto: A "produtividade significante", o processo de geração onde outros enunciados são legíveis mediante uma operação "paragramática" (82: 67).
  • Fenotexto: A "estrutura significada", a superfície do texto onde o ideologema se materializa e determina o sentido (Barei, p. 9).
  • Ideologema: Função intertextual que articula o texto com discursos sociais não literários, cristalizando modos dominantes do pensamento (82: 148). Não é uma mera repetição de fontes, mas uma função textual ativa (Barei, p. 9).

Embora Kristeva limite a intertextualidade a enunciados literários, seu mérito reside em abrir os estudos literários ao campo cultural mais amplo (Barei, p. 10).

Gérard Genette e a Transtextualidade

Gérard Genette, em sua obra Palimpsestes, propõe o conceito de transtextualidade para descrever todas as relações que um texto pode ter com outros. A intertextualidade é apenas uma das cinco relações transtextuais que ele identifica, centrando-se na "copresença efetiva de um texto em outro" (82:34).

Genette distingue três práticas intertextuais diretas:

  • Citação: Reprodução exata de um texto alheio, usualmente entre aspas.
  • Plágio: Apropriação de um texto alheio sem indicação da fonte (Barei, p. 15).
  • Alusão: Referência implícita a outro texto que o leitor deve reconhecer.

Genette separa a "hipertextualidade" da intertextualidade. A hipertextualidade refere-se à transformação de um texto anterior (hipotexto) em um texto posterior (hipertexto). Um exemplo clássico é A Eneida de Virgílio e o Ulisses de Joyce como hipertextos de A Odisseia (Barei, p. 15). No entanto, Silvia Barei argumenta que a hipertextualidade pode ser considerada um grau máximo de intertextualidade, especialmente quando o texto anterior se funde de maneira quase indistinguível com o receptor (Barei, p. 16).

Classificação da Intertextualidade (Lucien Dällenbach e Silvia N. Barei)

Para uma compreensão mais clara desse fenômeno, é útil seguir a classificação proposta por Lucien Dällenbach, e expandida por Silvia Barei, que distingue três categorias:

1. Intertextualidade Geral: Diálogo com Múltiplos Discursos

A intertextualidade geral refere-se à relação de um texto com uma vasta rede de outros discursos. Estes podem ser literários, mas também históricos, filosóficos, políticos, ou de qualquer outro âmbito social. Bakhtin não distinguia entre literatura e não literatura, considerando-os parte da "linguagem total" (Todorov; 81:137).

Essa categoria é a mais abrangente e permite a análise de como um texto estético se impregna das ideologias sociais, dos estilos de época e das conversas culturais de seu tempo (Barei, p. 4).

Exemplo de Intertextualidade Geral (na leitura da disciplina):

As reescritas de clássicos como o Martín Fierro, em obras como Las aventuras de la China Iron de Gabriela Cabezón Cámara ou El guacho Martín Fierro de Ricardo Fariña, são exemplos claros. Essas novelas não apenas citam ou aludem ao texto original, mas o reinterpretam e subvertem, deslocando vozes e perspectivas, o que constitui um ato de subversão do cânone (Barei, 1991, citado na disciplina).

2. Intertextualidade Limitada: Referências do Mesmo Autor

Essa categoria refere-se às relações que se estabelecem entre textos do mesmo autor. É uma forma mais restrita da intertextualidade geral, onde o autor dialoga consigo mesmo através de suas diferentes obras. O autor se cita permanentemente, recriando mundos fictícios, personagens ou temas recorrentes (Barei, p. 63).

Exemplos de Intertextualidade Limitada:

  • Jorge Luis Borges: No poema "Arte poética" (O Fazedor), Borges conclui com a imagem do "rio interminável". Anos depois, em "O fazedor" (A Cifra), inicia dizendo "Somos o rio que invocaste, Heráclito. Somos o tempo...". Aqui, um texto de 1981 remete a outro de 1960, repetindo lexemas-chave e explorando os ideologemas "Tempo/Morte/Permanência" (Barei, p. 63).
  • Antonio Berni: Suas séries de obras sobre "Juanito Laguna" são um caso pictórico de intertextualidade limitada, onde o mesmo personagem é recriado em distintos óleos, dando lugar inclusive à intertextualidade geral com uma canção de León Benarós (Barei, p. 64).
  • Joan Manuel Serrat: Em "Mediterrâneo" expressa "Quiero que me entierren entre la playa y el mar", e em "El mar", anos depois, corrige e denuncia: "Y yo que quería que me enterraran / entre la playa y el mar. / Miradle hecho una cloaca..." (Barei, p. 64).

A intertextualidade limitada cria uma estratégia de cumplicidade entre autor e leitor, onde o leitor reconhece as pegadas e correções de textos precedentes do mesmo autor (Barei, p. 64).

3. Intertextualidade Interna (Autotextualidade): O Texto Consigo Mesmo

A intertextualidade interna, também conhecida como autotextualidade ou mise en abyme (segundo Dällenbach), implica a relação de um texto consigo mesmo. O texto se cita permanentemente a si mesmo ou alude a partes anteriores de sua própria estrutura. É uma técnica comum na literatura contemporânea para expor os procedimentos da escrita e questionar a ficção dentro da ficção (Barei, p. 18).

Exemplos de Autotextualidade:

  • Gabriel García Márquez: Crônica de uma morte anunciada é um claro exemplo, já que a novela "vuelve constantemente a la misma historia —la muerte de Santiago Nazar— y convierte la novela en una recitación permanente por medio de voces distintas, de un único acontecimiento" (Barei, p. 18).
  • Miguel de Cervantes: A segunda parte de Dom Quixote é um exemplo clássico, onde os personagens leram a primeira parte e fazem referência a ela dentro da narração.
  • Mario Trejo: Seu poema em prosa "Tentación de describir el acto de escribir" (El uso de la palabra) é um exemplo extremo: "Describo la forma de este acto de escribir, de esta tentación de describir el acto de escribir que describe la forma de este acto de escribir..." (Barei, p. 18).

Bakhtin assinalou que as relações dialógicas são possíveis inclusive "com respeito ao próprio enunciado de um, em sua totalidade, com respeito às suas partes isoladas e com respeito a uma palavra isolada no enunciado" quando o autor se distancia ou desdobra sua autoria (86:257).

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Intertextualidade e o Texto Literário Latino-americano

O estudo da intertextualidade é particularmente relevante para a literatura latino-americana, caracterizada por sua heterogeneidade, hibridez e multilinguismo (Cornejo Polar, 1999, citado na disciplina). Aqui, a reescrita, o diálogo com a tradição e a subversão do cânone são práticas recorrentes. Autores como Pedro Lemebel movem-se "en los bordes escriturales, en las fronteras de los géneros", misturando jornalismo, literatura e ativismo, o que gera uma poderosa hibridação (Lemebel, citado na disciplina).

A intertextualidade neste contexto se converte em uma ferramenta para desafiar narrativas hegemônicas e dar voz a sujeitos e experiências marginais, como na crônica (Poblete, 2018, citado na disciplina). Permite que o texto literário se relacione não apenas com outras obras de arte, mas com "los signos sociales totales de los cuales ella no es sino una citación" (Goux em Angenot; 83:128).

Perguntas Frequentes sobre Intertextualidade

Qual é a diferença entre intertextualidade e plágio?

A intertextualidade implica um diálogo consciente e transformador entre textos, onde o texto original é reinterpretado, parodiado ou estilizado, enriquecendo a nova obra. O plágio, em contrapartida, é a apropriação indevida de um texto alheio, apresentando-o como próprio sem a devida atribuição e sem uma intenção de transformação ou diálogo crítico (Barei, p. 15).

Toda relação entre textos é uma intertextualidade?

Em um sentido elementar, "toda relación entre dos textos" pode ser definida como intertextual. No entanto, para uma análise profunda, é importante distinguir as diferentes "formas" de intertextualidade, desde citações explícitas até transformações profundas que Dällenbach e Barei classificam como intertextualidade geral, limitada e interna (Barei, p. 3; Todorov; 81:Cap. V).

Como reconhecer a intertextualidade em um texto?

Reconhecer a intertextualidade implica um processo de leitura ativa por parte do crítico ou estudante. Buscam-se "marcas textuais" que provêm de outros textos (anteriores, contemporâneos ou do próprio texto) e analisam-se os "processos interpretativos" que permitem reconhecer o intertexto. Isso inclui identificar citações, alusões, paródias, estilizações ou a reconfiguração de ideologemas (Barei, p. 3). A "poliaudição" do leitor é chave para esse reconhecimento.

O que é a intertextualidade no contexto da literatura latino-americana?

Na literatura latino-americana, a intertextualidade é um traço distintivo que permite um diálogo constante com a tradição, a história e os discursos sociais. Frequentemente, é utilizada para subverter cânones, explorar a hibridez cultural e linguística, e dar voz a perspectivas marginalizadas. É uma ferramenta para a reinterpretação e a "subversión de textos previos", como se vê nas reescritas de clássicos que desafiam os valores ideológicos originais (Barei, 1991, citado na disciplina).

A intertextualidade é um campo vasto e dinâmico que nos convida a ver cada texto como parte de uma conversa maior, uma rede infinita de significados que se transformam e perduram através do tempo. Esperamos que esta intertextualidade: teoria e exemplos tenha sido útil para o seu estudo!

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