A Enfermagem em Saúde do Adulto e Geriatria é uma disciplina fundamental que aborda as complexidades do cuidado de pessoas idosas, focando em seu bem-estar integral, na prevenção de doenças e no manejo de síndromes geriátricas comuns. Este campo não se concentra apenas na cura, mas também na promoção da funcionalidade, da qualidade de vida e da humanização da atenção, elementos cruciais para os estudantes e profissionais de enfermagem. Compreender os conceitos-chave, as patologias prevalentes e as ferramentas de avaliação é essencial para proporcionar um cuidado efetivo e compassivo.
Fundamentos da Enfermagem em Saúde do Adulto e Geriatria: Conceitos-Chave
A atenção à saúde do idoso exige uma compreensão profunda de suas características únicas. A humanização na saúde é um pilar central, buscando um cuidado que reconheça a dignidade intrínseca de cada pessoa. Promove-se um enfoque integral que considera o bem-estar físico, emocional, social e espiritual, assim como a participação ativa da família.
O que é a Humanização na Saúde?
A humanização é a ação de "tornar humano, familiar e afável a alguém ou algo", destacando qualidades como ética, proximidade, solidariedade, amabilidade, respeito, ternura e amor. Para José Carlos Bermejo, humanizar significa "fazer referência ao homem em tudo o que se realiza para promover e proteger a saúde, curar as doenças, garantir um ambiente que favoreça uma vida saudável e harmoniosa a nível físico, emotivo, social e espiritual".
Não se trata apenas de tratar bem, mas de realizar mudanças profundas em como os cuidados são prestados. É um compromisso pessoal e um movimento que busca transformar a realidade da atenção sanitária.
Princípios Centrais e Dimensões do Cuidado Humanizado
A dignidade humana é o coração da humanização, reconhecendo o valor intrínseco de cada pessoa. Implica uma reflexão profunda e um compromisso pessoal para transformar a realidade.
As dimensões do cuidado humanizado integral abrangem:
- Bem-estar físico e emocional: Controle efetivo da dor e atenção às necessidades psicológicas e emocionais.
- Dimensão Espiritual e Transcendental: Respeito por crenças e valores, e acompanhamento em processos existenciais.
A Norma Nº 1 da Humanização estabelece "Chamar as pessoas pelo seu nome", evitando identificá-las por sua cama, diagnóstico ou diminutivos. A família tem um papel insubstituível, participando ativamente no cuidado e apoio emocional. Além disso, uma infraestrutura humanizada, com personalização da unidade e controle de ruídos, contribui para um ambiente acolhedor.
Síndromes Geriátricas Comuns: Avaliação e Manejo de Enfermagem
As síndromes geriátricas são condições multifatoriais frequentes na população de idade avançada, que impactam significativamente a qualidade de vida. Sua detecção precoce e manejo integral são essenciais para melhorar o prognóstico.
Desnutrição em Pessoas Idosas
A desnutrição por deficiência é uma síndrome multifatorial por carência de nutrientes (vitaminas, minerais, calorias, proteínas), com repercussões deletérias sobre a saúde. É pouco frequente a deficiência de ácidos graxos essenciais.
Síndrome Confusional Aguda (Delirium)
O delirium é uma síndrome geriátrica frequente e multifatorial. É um importante preditor da gravidade e duração do quadro clínico, associado a um mau prognóstico que pode evoluir para condições críticas se a causa subjacente não for tratada. Caracteriza-se por:
- Início agudo: Horas ou dias, diferentemente da demência.
- Fluctuante: Piora no final da tarde/noite.
- Alteração da atenção: Incapacidade de se concentrar, perda do fio da conversa.
- Sintomas: Desorientação temporoespacial, alucinações, ideias delirantes, alteração do ritmo sono-vigília.
Síndrome da Fragilidade
A fragilidade aumenta o risco de desfechos negativos e diminui a adaptação a estressores. É diagnosticada com 3 ou mais dos seguintes fatores:
- Perda de peso não intencional (4,5 kg no último ano).
- Sensação subjetiva de esgotamento.
- Fraqueza objetiva (força de preensão).
- Diminuição da velocidade da marcha.
- Escassa atividade física.
Síndrome de Instabilidade e Risco de Queda
Esta síndrome apresenta alta incidência e elevada morbimortalidade, requerendo uma abordagem preventiva e de manejo fundamental. As quedas frequentes são definidas como dois ou mais episódios em um ano.
Síndrome da Dismobilidade
É o desconforto, dificuldade ou impossibilidade de mobilizar uma parte do corpo ou de se locomover, devido a fatores biológicos, mentais, sociais, espirituais ou funcionais. Afeta a qualidade de vida e tem risco de progressão.
Síndrome de Lesões de Pele Relacionadas à Dependência
Inclui várias condições:
- Lacerações da pele: Feridas traumáticas por forças mecânicas, incluindo a remoção de adesivos.
- Dermatite Associada à Incontinência (DAI): Inflamação e dano por exposição à urina/fezes, que altera o manto ácido da pele.
- Lesões por Pressão (LP): Danos localizados na pele e/ou tecido mole, geralmente sobre proeminências ósseas ou relacionados a dispositivos médicos.
Síndrome da Incontinência Urinária (IU)
A perda involuntária de urina é um problema social e higiênico. Pode ser:
- Transitória: Duração menor que 3 meses e reversível (causas como infecção urinária, delirium, fármacos).
- Permanente: Classificada segundo a fisiopatologia (de esforço, urgência, transbordamento, funcional, mista ou total).
Polimedicação (Polifarmácia)
A OMS a define como a "administração de muitos medicamentos ao mesmo tempo" ou "o uso rotineiro de cinco ou mais medicamentos", incluindo os de venda livre, receitados e tradicionais. Aumenta o risco de interações e efeitos adversos.
Síndrome da Constipação
Caracteriza-se pela passagem dificultosa das fezes, diminuição da frequência, endurecimento ou sensação de evacuação incompleta. Associada a alterações musculares, imobilidade, mudanças intestinais, alterações cognitivas/afetivas e baixa ingestão de fibra e água.
Avaliação Integral e Exames Preventivos no Idoso
A avaliação integral permite detectar fatores de risco e elaborar planos de atenção. O Exame de Medicina Preventiva do Adulto Maior (EMPAM) e a Avaliação Funcional do Adulto Maior (EFAM) são ferramentas-chave.
O que o EMPAM avalia?
O EMPAM tem como objetivos avaliar a saúde integral e funcionalidade, identificar e controlar fatores de risco de perda funcional, e elaborar um plano de atenção. Avalia:
- Antropometria: Peso, altura, circunferência da cintura.
- Sinais vitais: Pressão arterial, pulso.
- Atividade física: >3 vezes/semana por 30 min.
- Histórico: Mórbidos, fármacos, vacinas (pneumocócica, influenza, COVID-19).
- Avaliação funcional (EFAM): Preditor de perda de funcionalidade em autônomos.
- Risco de quedas.
- Identificação de redes de apoio.
- Suspeita de maus-tratos.
- Vícios.
- Plano de atenção.
A EFAM não deve ser aplicada a idosos com deficiência visível; nesses casos, utilizam-se o Índice de Katz ou Barthel. O EMPAM inclui recomendações como atingir PA <140/90 e o consumo de cremes e bebidas lácteas específicas para idosos.
Ferramentas de Rastreamento e Avaliação
- Escala de Depressão Geriátrica – Yesavage: Rastreamento de suspeita de depressão, útil para a avaliação de saúde mental.
- Avaliação do Equilíbrio Unipodal: Mede o equilíbrio estático para avaliar o risco de queda.
- Timed Up and Go: Mede o tempo para percorrer três metros, avaliando o equilíbrio dinâmico e o risco de queda.
- Índice de Barthel: Para pessoas com perda de funcionalidade, dependência severa ou deficiência psíquica.
- Questionário de Atividades Funcionais de Pfeffer: Informação obtida do familiar ou cuidador.
Encaminhamento e Plano de Ação Intersetorial
Os resultados do EMPAM e os testes de risco de quedas guiam os encaminhamentos. Um idoso autônomo sem risco é encaminhado para promoção/prevenção. Com risco, para médico e/ou educação. Com testes de quedas alterados, para médico e oficina de prevenção de quedas. A presença de deterioração visual, uso de benzodiazepínicos/sedativos e >4 fármacos diários constitui uma urgência.
O plano de ação intersetorial é realizado com o idoso, família e comunidade, dependendo dos fatores de risco detectados.
Patologias Frequentes e Mudanças Fisiológicas no Idoso
O envelhecimento acarreta mudanças morfológicas e funcionais que predispõem a patologias específicas, que frequentemente se apresentam de forma atípica.
Patologias Mais Incapacitantes e Frequentes
- Mais incapacitantes: Osteoarticulares (artrose, artrite), demências, cerebrovasculares agudas e crônicas.
- Mais frequentes: Perda de visão, perda de audição, artrose.
As patologias psiquiátricas mais frequentes são as demências (Alzheimer, vascular, mistas, Parkinson, pós-traumática, por HIV).
Complicações de Mudanças Fisiológicas
- Imobilidade: Rigidez articular, atrofia muscular, lesões por pressão (LPP), trombose venosa profunda (TVP), embolia pulmonar, hipostasia pulmonar e pneumonia, depressão psíquica.
- Desidratação: Isquemia cerebral, choque, insuficiência renal.
- Incontinência fecal e urinária: LPP, dermatite associada à incontinência (DAI), sepse.
- Constipação: Distensão abdominal, fecaloma, íleo paralítico, obstrução intestinal.
- Dependência física: Depressão, transtornos no grupo familiar.
Flashcards
Toque para virar · Deslize para navegar
Gestão do Cuidado em Doenças Crônicas em Geriatria
A enfermagem desempenha um papel crucial no manejo de doenças crônicas, que são altamente prevalentes na população idosa.
Gestão do Cuidado em Hipertensão Arterial (HAS)
A HAS é uma elevação persistente da pressão arterial (>130/80 mmHg), sem sintomas evidentes em muitos casos, por isso é conhecida como "doença silenciosa". É um fator de risco importante para doenças cardiovasculares, renais e cerebrovasculares. Afeta 20-40% da população adulta na América Latina e mais de 70% em maiores de 65 anos no Chile.
O diagnóstico é realizado com medições de PA em consulta, perfil de PA (3 medições em 3 dias) ou monitoramento ambulatorial de PA (MAPA) por 24 horas. É fundamental estar em repouso e evitar café/tabaco 30 minutos antes da medição.
O tratamento não farmacológico inclui aumentar o consumo de potássio, atividade física, manejo do peso, reduzir sal e álcool, e não fumar. O tratamento farmacológico geralmente inicia com terapia dupla ou tripla combinada. O protocolo HEARTS busca padronizar o manejo na atenção primária. A adesão ao tratamento é chave e requer educação e acompanhamento de enfermagem.
Gestão do Cuidado em Dislipidemia
A dislipidemia são alterações nos níveis de gorduras no sangue (colesterol e triglicerídeos), aumentando o risco de doenças cardiovasculares (aterosclerose) e pancreatite (triglicerídeos muito altos).
- Colesterol HDL (bom): Cardioprotetor, depura artérias.
- Colesterol LDL (ruim): Acumula-se nas artérias, formando placas.
O diagnóstico inicia com rastreamento e é confirmado com perfil lipídico em jejum. A dieta (redução de gorduras saturadas, aumento de frutas, verduras, fibra) e a atividade física são a pedra angular do tratamento não farmacológico. As estatinas são os fármacos de primeira escolha para o LDL alto. O encaminhamento para nível secundário é indicado em suspeita de dislipidemias primárias, RCV alto com LDL elevado apesar de tratamento intensivo, intolerância a estatinas ou hipertrigliceridemia grave.
Manejo Integral de Feridas e Pé Diabético
A cura avançada utiliza soluções fisiológicas e curativos ativos para favorecer a cicatrização. É essencial uma avaliação exaustiva da ferida (tamanho, profundidade, exsudato, sinais de infecção, pele circundante).
O manejo do pé diabético é um procedimento que inclui limpeza da pele e lesão para controlar a carga bacteriana, seguido da aplicação de curativos adequados. A frequência da troca depende do tipo de ferida e curativo. É crucial identificar a causa (vascular, neuropática) da úlcera.
- Arrastamento Mecânico: Limpeza da ferida com soluções (soro fisiológico, Prontosan) e proteção do tecido de granulação.
- Desbridamento: Eliminação de tecido necrótico para permitir a cicatrização. É encaminhado se houver tecido necrótico/desvitalizado (exceto em paciente terminal ou úlcera seca em patologia vascular não resolvida).
- Limpeza e Proteção da Pele: Produtos específicos (Skyntegrity, Molicare Skin) para limpeza; soluções (Linovera, Cavilon) para proteger a pele perilesional.
- Coberturas e Curativos: Curativos primários (contato direto) e secundários. Devem manter um ambiente úmido, isolar a lesão, permitir troca gasosa e não ser tóxicos.
- Fixação – Fitas Cirúrgicas: Para fixar curativos. Não são estéreis, não aplicar diretamente sobre a ferida. Avaliar estado e tipo de pele.
Uma complicação grave é a osteomielite, uma infecção óssea que requer antibióticos e cirurgia. Os cuidados com o pé no diabetes incluem vigiar mudanças de cor, sensibilidade, forma, feridas, unhas encravadas, vermelhidão, e realizar cuidados podológicos adequados.
O manejo integral do pé diabético abrange terapia complementar e nutrição, elementos que favorecem a cicatrização e o controle metabólico.
O Programa de Saúde Cardiovascular (PSCV): Papel da Enfermeira
O PSCV busca reduzir a ocorrência de eventos cardiovasculares (infarto, AVC) e melhorar o manejo de pacientes com DCV, diminuindo complicações e melhorando a qualidade de vida.
Critérios de Ingresso e Papel da Enfermeira
Os usuários ingressam no PSCV através de EMPA/EMPAM, programas Vida Saudável, urgências, consulta de morbidade, etc. Os critérios incluem hipertensão arterial, diabetes, dislipidemias, tabagismo, obesidade, entre outros.
A enfermeira tem um papel central no controle e acompanhamento. Realiza avaliação clínica integral, calcula o risco cardiovascular (Framingham), controla sinais vitais, educa o paciente (insulinoterapia, prevenção de pé diabético), detecta dano em órgãos-alvo e encaminha oportunamente.
O programa se divide em Fase de Compensação (estabilizar fatores de risco) e Fase de Seguimento (manter estabilidade, adesão ao tratamento e controles periódicos segundo o risco cardiovascular).
Cuidados no Final da Vida e Bem-Estar do Profissional
O acompanhamento no final da vida é uma lição transformadora. A falta de preparo profissional é uma barreira que pode gerar tensão e fazer com que a pessoa e a família se sintam maltratadas ou incompreendidas. Cuidados paliativos são essenciais para uma morte digna.
Cuidado Espiritual no Luto
Implica acompanhar a busca de significado, facilitar um enfrentamento que mobilize esperança e conforto, e consolidar mudanças positivas para construir um caminho de satisfação e bem-estar pessoal.
Cuidados ao Profissional: Prevenção do Burnout
O burnout é uma síndrome de desgaste profissional com graves consequências:
- Sintomas psicológicos: Tristeza, depressão, raiva, irritabilidade, perda de motivação.
- Sintomas físicos: Pressão arterial alta, problemas cardíacos, diabetes tipo 2, maior vulnerabilidade a infecções.
- Impacto organizacional: Absenteísmo, rotatividade, deterioração na qualidade da atenção, clima de trabalho tóxico.
É fundamental cuidar do bem-estar do profissional com licenças médicas, apoio e fomento da motivação. Um ambiente humanizado também beneficia o pessoal, como controlar ruídos ou proporcionar espaços privados para as famílias.
Perguntas Frequentes (FAQ)
O que é a enfermagem em saúde do adulto e geriatria?
A enfermagem em saúde do adulto e geriatria é o ramo da enfermagem que se especializa na atenção integral das pessoas idosas, abordando desde a prevenção e promoção da saúde até o manejo de doenças crônicas, síndromes geriátricas e cuidados no final da vida, sempre sob um enfoque humanizado.
Quais são as síndromes geriátricas mais comuns que um enfermeiro deve conhecer?
As síndromes geriátricas mais comuns incluem a desnutrição, a síndrome confusional aguda (delirium), a fragilidade, o risco de quedas, a imobilidade, as lesões de pele relacionadas à dependência (como LPP e DAI), a incontinência urinária, a polimedicação e a constipação.
Como se avalia a funcionalidade de um idoso na enfermagem?
A funcionalidade do idoso é avaliada por meio de instrumentos como a Avaliação Funcional do Adulto Maior (EFAM), que prediz a perda de funcionalidade em pessoas autônomas. Para aqueles com deficiência visível, utilizam-se o Índice de Katz ou Barthel, que valorizam a autonomia em atividades básicas da vida diária.
Que papel a humanização desempenha no cuidado geriátrico?
A humanização é um pilar ético central no cuidado geriátrico. Implica reconhecer a dignidade do idoso, chamá-lo pelo nome, envolver a família em seu cuidado, e criar um ambiente hospitalar que considere o bem-estar físico, emocional e espiritual, transcendendo o mero tratamento da doença para focar na pessoa em sua totalidade.