A etapa de Autoritarismo e Retorno de Perón na Argentina (1966-1976) marcou um período de profunda transformação e conflito na história do país. Compreendendo desde o golpe militar que derrubou o governo democrático até a morte de Juan Domingo Perón e o início de uma nova ditadura militar, este lapso é crucial para entender as dinâmicas políticas, sociais e econômicas argentinas. Para os estudantes, compreender este processo complexo é fundamental para o estudo da história contemporânea da Argentina.
O Ensaio Autoritário: A "Revolução Argentina" (1966-1970)
O Golpe de 1966 e o Consenso Inicial
Em 28 de junho de 1966, um golpe militar depôs o presidente Arturo Illia, inaugurando a ditadura autodenominada "Revolução Argentina". Este golpe, liderado pelo general Juan Carlos Onganía, foi inicialmente apoiado por diversos setores: grandes, médios e pequenos empresários, a maioria dos partidos políticos (exceto radicais, socialistas e comunistas), e inclusive alguns grupos de extrema esquerda. Juan Domingo Perón, do exílio, recomendou “desensillar hasta que aclare”, enquanto sindicalistas e políticos peronistas demonstraram esperança diante de um militar que enfatizava a ordem e a unidade.
Tendências Ideológicas no Governo de Onganía
O governo inicial de Onganía carecia de uma definição clara, abrigando diversas tendências. Por um lado, o establishment econômico tinha interlocutores diretos em chefes militares, buscando um reordenamento econômico. Por outro, os próximos a Onganía se nutriam de um nacionalismo tradicional e de doutrinas corporativistas ou organicistas, buscando um reordenamento social que liquidasse as formas políticas liberais. Essas contradições entre corporativistas e liberais se disfarçavam, prevalecendo, por enquanto, a necessidade de um Estado forte e controlável.
O "Choque Autoritário" e a Reorganização do Estado
A primeira fase caracterizou-se por um "choque autoritário". Proclamou-se uma etapa revolucionária, anexando um Estatuto da Revolução Argentina à Constituição. Onganía, designado pela Junta de Comandantes, governou até junho de 1970. Dissolveu-se o Parlamento e os partidos políticos, cujos bens foram confiscados. Os militares foram afastados das decisões políticas, embora se tenha institucionalizado a representação das armas em questões de segurança. Os ministérios foram reduzidos a cinco, e criou-se um Estado-Maior da Presidência, considerando o planejamento econômico e a pesquisa científica como insumos de segurança nacional.
Repressão e Censura: A Noite dos Bastões Longos
A sociedade foi "engessada" mediante a repressão ao comunismo, que se estendeu a toda expressão de pensamento crítico. A universidade foi o alvo principal, vista como foco de infiltração. Intervieram-se as universidades, acabando com sua autonomia. Em 29 de julho de 1966, na "noite dos bastões longos", a polícia invadiu faculdades da UBA, agredindo estudantes e professores, o que provocou inúmeras renúncias. A censura estendeu-se também a novos costumes como as minissaias e o cabelo comprido, associadas a males morais segundo a Igreja e os militares.
Medidas Econômicas e Resistência Sindical
Antes de uma política econômica definida, reduziu-se drasticamente o pessoal público e em empresas estatais como as ferrovias, e modificaram-se condições de trabalho em portos para reduzir custos. O fechamento de usinas de açúcar em Tucumán foi outra medida espetacular para racionalizar a produção. O protesto sindical foi silenciado com violência. Embora não se tenha derrogado a lei de associações profissionais, sancionou-se uma de arbitragem obrigatória que condicionava as greves. O Plano de Ação da CGT em fevereiro de 1967 foi duramente reprimido com demissões em massa, retiradas de personalidade jurídica sindical e intervenções, levando à derrota do sindicalismo.
O Plano Krieger Vasena e a Reestruturação Econômica
O governo encontrou uma fórmula política para reestruturar a sociedade e a economia ao fechar a cena política e corporativa, o que desestabilizou o sindicalismo e Perón. Em dezembro de 1966, o conflito resolveu-se a favor dos liberais com a designação de Julio Alsogaray como comandante em chefe do Exército e Adalbert Krieger Vasena como ministro da Economia e do Trabalho. O plano de Krieger Vasena, lançado em março de 1967, buscou superar a crise cíclica e alcançar uma estabilização prolongada. Congelaram-se salários por dois anos, tarifas de serviços públicos e combustíveis, e estabeleceu-se um acordo de preços. O déficit fiscal foi reduzido com desvalorização de 40% e retenções sobre exportações agropecuárias, permitindo estabilidade cambial e o mercado livre de câmbio. Os sucessos iniciais foram notáveis, com inflação reduzida e contas públicas equilibradas.
Beneficiários e Prejudicados da Nova Política Econômica
Essa política beneficiou principalmente o setor concentrado, predominantemente estrangeiro, consolidando mudanças esboçadas desde 1955 e aumentando a desnacionalização da economia. Grandes obras públicas solucionaram problemas de transporte e energia, criando oportunidades para empreiteiros do Estado. Em contraste, a lista de prejudicados foi ampla: setores rurais (pelas retenções), empresários nacionais (falta de proteção), economias provinciais (supressão de proteções tradicionais) e amplos setores médios e trabalhadores (pela liberação de aluguéis, avanço de supermercados). A balança pendeu a favor dos grandes empresários, redefinindo o uso da transferência de renda do setor rural para o urbano, não através do consumo, mas de investimentos e exportações não tradicionais.
Fim da "Pax Romana" e a Queda de Onganía
Desde 1968, surgiram indícios do fim da "pax romana". Em março, uma CGT contestatória liderada por Raimundo Ongaro desafiou o governo, que tentou controlá-lo com ameaças e ofertas. O clima de insatisfação social uniu-se aos protestos de produtores rurais e empresários nacionais, que buscavam uma alternativa mais nacional e popular. A relação entre Onganía e Krieger Vasena se tensionou. Em maio de 1969, o Cordobazo, um poderoso movimento de protesto estudantil e operário, fez desaparecer o mito da ordem de Onganía. Este acontecimento, juntamente com o sequestro e assassinato do general Aramburu em maio de 1970, dissipou as dúvidas dos militares, que depuseram Onganía em junho de 1970.
Os Militares em Retirada: Busca por uma Saída Política (1970-1973)
O Governo de Levingston e a Tentativa Nacionalista-Populista
Após a queda de Onganía, a Junta de Comandantes designou o general Roberto Marcelo Levingston como presidente, que governou até março de 1971. Levingston, influenciado por oficiais nacionalistas, nomeou Aldo Ferrer como ministro da Economia, buscando reeditar uma fórmula nacionalista e populista. Impulsionou-se um aumento salarial, protegeram-se os empresários nacionais com crédito e contratos estatais, e promoveu-se o "compre argentino" e a "argentinização do crédito". Esperava-se criar condições para uma "democracia autêntica" em quatro ou cinco anos, mas sua tentativa de mobilizar o "povo" a partir do governo militar resultou ingênua.
O Ressurgimento Sindical e Político: A Hora do Povo
O governo de Levingston reativou a CGT, que, pressionada por demandas sociais e pela inflação, lançou um plano de luta com paralisações gerais. Simultaneamente, os partidos tradicionais, encorajados pelo general Lanusse, reapareceram. No final de 1970, radicais e peronistas (através do delegado de Perón, Jorge Daniel Paladino, e Arturo Mor Roig) assinaram o documento "La Hora del Pueblo", acordando o fim das proscrições eleitorais e o respeito às normas constitucionais em um futuro governo democrático. Este documento também incluiu definições econômicas nacionalistas e distribucionistas, aproximando a CGT e a CGE.
Lanusse e o Grande Acordo Nacional
Levingston foi removido em março de 1971 após o "viborazo" em Córdoba, uma nova mobilização massiva onde as organizações armadas tiveram presença. Foi substituído pelo general Alejandro Lanusse, que anunciou o restabelecimento da atividade política e a convocação de eleições gerais, subordinadas a um Grande Acordo Nacional (GAN). O GAN buscava uma condenação à "subversão", garantias econômicas e democráticas, e um lugar institucional para as Forças Armadas. Lanusse inclusive se ofereceu como candidato presidencial de transição, mas a posição institucional das Forças Armadas era impossível de assegurar nesse clima.
A Estratégia Pendular de Perón e o Retorno
Perón, do exílio, substituiu Paladino em novembro de 1971 e nomeou Héctor J. Cámpora como seu delegado pessoal, mostrando sua total subordinação. Perón manteve uma estratégia pendular: incentivou tanto o descontentamento social e o apoio das organizações armadas (incluindo Rodolfo Galimberti em seu Comando estratégico em 1972) quanto "La Hora del Pueblo" e seu próprio GAN, a Frente Cívica de Libertação Nacional. Em julho de 1972, Lanusse, ao ver a impossibilidade de obrigar Perón a negociar, optou por assegurar que Perón não seria candidato, em troca de sua própria autoproscrição. Perón aceitou tacitamente, retornou por poucos dias em novembro de 1972, cultivou uma imagem pacificadora e selou o acordo democrático com Ricardo Balbín. Finalmente, impôs a fórmula Cámpora-Solano Lima para a Frente Justicialista de Libertação. O lema "Cámpora al gobierno, Perón al poder" resumia o caráter da transação. A campanha eleitoral, marcada pela Juventude Peronista, polarizou a sociedade contra o poder militar.
O Retorno de Perón e a Segunda Experiência Peronista (1973-1976)
A Posse de Cámpora e o Retorno de Perón
Em 11 de março de 1973, o peronismo venceu as eleições com quase 50% dos votos. Em 25 de maio de 1973, Héctor J. Cámpora assumiu a presidência. Nesse dia, com a presença de Salvador Allende e Osvaldo Dorticós, a sociedade mobilizada escarneceu os militares, liberando presos políticos mediante uma lei de anistia. Em 20 de junho de 1973, Juan Domingo Perón retornou ao país. Uma imensa multidão se congregou em Ezeiza para recebê-lo, mas um enfrentamento entre grupos armados de distintas tendências do peronismo provocou um massacre. Cámpora e o vice-presidente Solano Lima renunciaram em 13 de julho, assumindo Raúl Lastiri, genro de José López Rega, secretário particular de Perón e ministro do Bem-Estar Social.
A Fórmula Perón-Perón e a Morte do Líder
Em setembro de 1973, realizaram-se novas eleições. A fórmula Perón-Perón, com Juan Domingo Perón e sua esposa Isabel (María Estela Martínez), obteve 62% dos votos. Perón, em seus últimos anos, buscou um acordo democrático com as forças políticas, um pacto social com os representantes corporativos e uma condução mais centralizada de seu movimento. Em 1º de julho de 1974, Perón faleceu e Isabel Perón o substituiu até seu derrubamento em 24 de março de 1976. Os três anos dessa segunda experiência peronista encerraram uma época da história argentina de maneira trágica.
O Programa de Reconstrução e Libertação Nacional
O Programa de Reconstrução e Libertação Nacional, apresentado em maio de 1973, buscou superar limitações ao crescimento econômico sem modificar seus traços básicos. Não visava ao "socialismo nacional" nem a novos rumos do capitalismo. Perón recorreu a José Ber Gelbard, chefe da CGE (empresas de capital nacional), como ministro. Os objetivos eram fortemente intervencionistas e, em menor medida, nacionalistas e distribucionistas, sem atacar interesses estabelecidos. Esperava-se apoiar o crescimento com a expansão do mercado interno e das exportações, favorecendo o setor industrial e cuidando das rendas rurais.
O Pacto Social: Sucessos Iniciais e Desafios
A chave do programa peronista residia no pacto social, para solucionar a disputa distributiva entre setores. O Estado deveria disciplinar os atores combinando persuasão e autoridade. Assinou-se um acordo entre a CGE e a CGT que estabeleceu o congelamento de preços e a supressão de convenções coletivas por dois anos, compensado com um aumento salarial de 20%. Os primeiros resultados foram espetaculares: a inflação foi contida, a balança de pagamentos melhorou e a atividade interna aumentou. No entanto, desde dezembro de 1973, reapareceu a inflação, o aumento do preço do petróleo encareceu importações e o Mercado Comum Europeu fechou-se para as carnes argentinas. O pacto social desgastou-se diante da incapacidade das autoridades de fazer valer sua autoridade, e a luta setorial ressurgiu.
Fracasso do Pacto Social e Mobilização Sindical
Os atores do pacto social mostraram pouca vontade de cumpri-lo. A CGE representava mal os empresários, que violaram o pacto com desabastecimento, sobrepreços e mercado negro, e o investimento privado foi magro. A CGT não se sentia confortável, já que sua tática tradicional de negociar sem se comprometer não servia com um governo peronista. A mobilização dos trabalhadores, com ocupações de fábricas e questionamentos a gerentes, transbordou as direções sindicais. Perón tentou fortalecer os sindicalistas, mas o pacto foi se desgastando. Em março de 1974, renegociou-se com uma rodada geral de aumentos que não satisfez a ninguém. Em junho, Perón convocou uma concentração na Plaza de Mayo, ameaçando renunciar, em sua última aparição pública antes de morrer.
A Época de Isabel Perón e o "Rodrigazo"
Na segunda fase do governo peronista, Isabel Perón, após a morte de seu esposo, buscou homogeneizar o governo e construir uma base de poder própria, rodeada de fiéis como José López Rega ("o Bruxo"). Sua política afastou-se da de Perón, buscando alianças com militares e empresários. Em 1975, a crise econômica agravou-se com inflação descontrolada e déficit estatal. O ministro da Economia, Celestino Rodrigo (equipe de López Rega), provocou um "choque" econômico em junho de 1975 com uma desvalorização de 100% e aumentos de tarifas, conhecido como o "Rodrigazo". Isso anulou os aumentos salariais acordados em negociações coletivas. A CGT, pela primeira vez, liderou uma greve geral contra um governo peronista, conseguindo a homologação dos aumentos e a renúncia de López Rega e Rodrigo, mas a inflação devorou as melhorias em um mês.
O Fim do Governo Peronista e o Golpe de 1976
A crise econômica incontrolável preparou a crise política. Nem as Forças Armadas nem os grandes empresários apoiaram Isabel Perón em julho de 1975. Após a queda de López Rega, o general Videla, novo comandante em chefe, negou-se a apoiar politicamente o governo e preparou o golpe. Políticos e sindicalistas tentaram uma saída com Ítalo Luder, mas a recessão, desemprego e inflação tornaram impossível um acordo. Em 24 de março de 1976, os comandantes militares depuseram e prenderam Isabel Perón. A maior parte da população recebeu o golpe com imenso alívio e expectativas, marcando o fim deste período.
A Primavera dos Povos: Mobilização Social e Guerrilha
O Cordobazo e o Novo Ativismo Sindical
O Cordobazo de maio de 1969 foi uma explosão de protesto estudantil e operário, precedido por agitação em universidades e fábricas de Córdoba. Em 29 de maio, uma greve geral da CGT local uniu-se a estudantes e operários no centro da cidade. A repressão policial gerou violentos enfrentamentos, barricadas e assaltos. A multidão, sem palavras de ordem nem organizadores claros, controlou o centro por horas até a intervenção do Exército. Este evento foi um episódio fundador de uma onda de mobilização social até 1975. Surgiu um novo ativismo sindical, especialmente em Córdoba e Rosário, em fábricas de grandes empresas automotivas. Os conflitos não se limitaram ao salarial, estendendo-se a condições de trabalho e desafiando o sindicalismo tradicional. Direções como SITRAC, SITRAM ou SMATA em Córdoba foram "classistas", transgressoras e com grande capacidade de mobilização.
Outras Formas de Protesto e a Conformação da "Primavera"
Os episódios de protesto repetiram-se em cidades como Rosário ("Rosariazo"), Cipolletti, Mendoza, Neuquén e General Roca. Também houve agitação em zonas rurais não pampeanas, com arrendatários e colonos organizando-se em Ligas Agrárias. Essas formas de protesto, que lembravam os "motins pré-industriais", surgiam por temas cotidianos (moradia, água, saúde) e mobilizavam vastos setores, desde trabalhadores ocasionais até setores médios. Este "coro múltiplo, heterogêneo mas unitário" conformou uma "primavera dos povos", que cresceu ao descobrir a fraqueza do poder autoritário. A visão simplificada da época concentrava todos os males no poder autoritário e em seus grupos de apoio, frente a um "povo" que se mobilizava para transformar tudo.
Origem e Proliferação das Organizações Guerrilheiras
As primeiras organizações guerrilheiras surgiram na década de 1960, inspiradas na experiência cubana e reativadas pela ação de Che Guevara na Bolívia. No entanto, seu verdadeiro caldo de cultura foi a experiência autoritária (1966-1973) e a convicção da ausência de alternativas fora da ação armada. Desde 1967, surgiram grupos na esquerda e no peronismo: Forças Armadas Peronistas (FAP), Descamisados, Forças Armadas Revolucionárias (FAR), Forças Armadas de Libertação (FAL). Por volta de 1970, destacaram-se Montoneros (de origem católico nacionalista e tornada peronista) e o Exército Revolucionário do Povo (ERP), vinculado ao Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PRT) trotskista.
Ações e Significado da Violência Armada
O sequestro e assassinato do general Aramburu em maio de 1970 por Montoneros foi sua "certidão oficial de nascimento" para a vida pública. As ações de violência cresceram até 1973, incluindo sequestros de empresários, "tomadas" de cidades para demonstrar poder e "expropriações" ao estilo Robin Hood. Outros assassinatos notáveis foram os de Augusto Vandor e José Alonso, líderes sindicais. A violência não buscava apenas equipar as organizações, mas também inserir-se e aprofundar conflitos sociais. O caso Aramburu combinava vingança por fuzilamentos de 1956, queda de um dirigente odiado e liquidação de uma alternativa política liberal. A cultura política dessas organizações adotou a lógica da guerra, glorificando a violência e o heroísmo.
A "Tendência Revolucionária" Peronista e a Ruptura com Perón
Montoneros foi a organização que melhor se adaptou ao clima do país, absorvendo quase todas as demais (exceto o ERP). Exploraram o clima da saída política e o retorno de Perón, dedicando-se à organização e mobilização de setores populares e universitários através da Juventude Peronista. A "tendência revolucionária" peronista, encarnada em Montoneros e na Juventude Peronista, inseriu-se profundamente no movimento, servindo-se de seu crescimento. Perón usou esses jovens para hostilizar os militares e apresentar-se como o único capaz de contê-los, repetindo sua estratégia de "bombeiro incendiário" de 1945. No entanto, na cultura política desses setores, misturavam-se a velha tradição peronista com a crítica radical da sociedade, que derivou na consigna "pátria peronista" vs. "pátria socialista". Montoneros, inicialmente aspirando a encarnar ambas, terminou identificada com a segunda.
A Guerra de Aparelhos e o Terrorismo de Estado
O triunfo de 1973 abriu uma luta decisiva pela condução real e simbólica do peronismo. A "tendência revolucionária" foi deslocada de posições de poder no governo, o que as levou a uma "guerra de aparelhos" contra o sindicalismo e a direita peronista, demonstrando quem mobilizava mais gente e "batia mais forte". A mobilização de rua e as concentrações na Plaza de Mayo transformaram-se em demonstrações de força. Em 20 de junho de 1973 em Ezeiza e em 1º de maio de 1974 na Plaza de Mayo foram batalhas reais. Simultaneamente, a guerra de aparelhos desenvolveu-se sob a forma de terrorismo, com assassinatos estratégicos. Montoneros eliminou figuras como José Rucci, secretário-geral da CGT. Contra eles surgiu outro terrorismo parapolicial, a Triple A (Ação Anticomunista Argentina), nutrida de capangas sindicais e quadros fascistas, que multiplicou os assassinatos. A ruptura entre Montoneros e Perón tornou-se pública em 1º de Maio de 1974, quando Perón os expulsou da Plaza de Mayo, renunciando a falar em nome do Movimento. Após a morte de Perón, Montoneros passou à clandestinidade, realizando assassinatos, sequestros (como o de Jorge Born por 60 milhões de dólares) e ações militares. O ERP, por sua vez, instalou um foco guerrilheiro em Tucumán em 1974. A repressão clandestina cresceu, e desde fevereiro de 1975, o Exército assumiu a tarefa de reprimir a guerrilha em Tucumán, iniciando o genocídio.
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1973: Um Balanço e Contexto Socioeconômico
Desempenho Econômico e Modernização
Apesar dos conflitos, a economia argentina teve um desempenho medianamente satisfatório até 1975. O setor agropecuário pampeano experimentou um notável crescimento desde o início dos anos sessenta, com novos mercados para grãos e óleos. O Estado promoveu a modernização com créditos e subsídios, e a fabricação local de maquinaria agrícola, agroquímicos e a flexibilização de arrendamentos levaram a um aumento significativo da produtividade. As exportações industriais também cresceram. A indústria modernizou-se, aproximando-se de padrões internacionais, e o crescimento industrial foi sustentado de 1963 até 1975, impulsionado por investimentos, empresas nacionais, e um crescimento do mercado interno devido ao aumento do emprego e recuperação salarial. A participação dos assalariados no PIB superou 45%.
O Papel do Estado e os Limites de 1973
Desde 1955, o Estado manteve e expandiu seus atributos e capacidade para definir as regras do jogo, transferindo rendas do setor agrário para o industrial, e usando crédito subsidiado ou compras de empresas estatais. No entanto, ninguém controlava totalmente suas estruturas, evidenciando as dificuldades do "Estado burocrático autoritário" de Onganía. Os atores corporativos costumavam concluir em empates, e o sindicalismo conservou um surpreendente poder. Por volta de 1973, a expansão econômica aproximava-se dos limites da capacidade instalada por falta de investimento privado. A conflitividade social, sustentada em um ciclo de crescimento e expectativas elevadas, não podia ser satisfeita com uma fácil redistribuição. A iniciativa para a paz social deveria passar ao Estado.
Cultura Política e Ausência de Democracia
A onda de mobilização popular iniciada em 1973, com forte participação desde associações de bairro até fábricas, continha elementos democráticos. No entanto, estes se cruzaram com uma cultura política espontânea, cunhada em anos de autoritarismo e democracia fingida, que identificava o poder com o inimigo a menos que se o "tomasse" para reprimir. Os partidos políticos careciam de força para se fazer ouvir, e os ativistas de matrizes peronistas, católicas ou de esquerda tenderam a acentuar a lógica da guerra. As organizações armadas, especialmente Montoneros com a Juventude Peronista, preencheram um vazio, enquadrando o movimento popular em uma organização rígida, eliminando o espontâneo e plural, e afastando-o da alternativa democrática.
Reinterpretações do Peronismo e a "Linha Histórica"
O peronismo, proscrito e resistente, atraiu muitos jovens que encontravam nele um espaço de contestação. Do exílio, Perón atualizou seu discurso com temas diversos (terceiro-mundismo, ecologia), o que permitiu múltiplas interpretações na Argentina. O peronismo mostrou-se permeável a discursos do catolicismo, nacionalismo e esquerda, sobretudo quando esta última aceitou que os trabalhadores eram irrevogavelmente peronistas. Pensadores como Jorge Abelardo Ramos ou Rodolfo Puiggrós buscaram uma via intermediária entre socialismo e libertação nacional. A história foi lida em chave maniqueísta, buscando uma "linha" que separava bandos irreconciliáveis, culminando no enfrentamento entre o poder autoritário e o povo peronista, projetando o peronismo como o âmbito para uma segunda "emergência do povo" em direção à emancipação e ao socialismo.
Perguntas Frequentes sobre Autoritarismo e Retorno de Perón (1966-1976)
O que foi a "Revolução Argentina" (1966-1973)?
Foi o nome adotado pela ditadura militar que derrubou o presidente Arturo Illia em 1966. Liderada inicialmente pelo general Juan Carlos Onganía, buscou um reordenamento profundo do Estado, da economia e da sociedade mediante medidas autoritárias, repressão e censura, e uma reestruturação econômica que beneficiou o grande empresariado em detrimento de outros setores. Durou até 1973, quando foram convocadas eleições que permitiram o retorno do peronismo ao poder.
Qual foi o papel de Perón durante o período de autoritarismo (1966-1973)?
Durante o período de autoritarismo, Perón manteve-se no exílio mas conservou uma posição central na política argentina. Adotou uma estratégia "pendular", incentivando tanto os setores da esquerda peronista e as organizações armadas para hostilizar o regime militar, quanto os partidos tradicionais para negociar uma saída democrática. Sua figura tornou-se o referente para uma ampla gama de anseios insatisfeitos e foi chave na negociação que conduziu às eleições de 1973 e seu posterior retorno.
O que foi o Cordobazo e por que foi significativo?
O Cordobazo foi um massivo levante popular ocorrido em Córdoba em maio de 1969, protagonizado por estudantes e operários. Caracterizou-se por violentos enfrentamentos com a polícia e o exército. Foi significativo porque rompeu o "mito da ordem" da ditadura de Onganía, evidenciou a fraqueza do regime e tornou-se o evento fundador de uma onda de mobilização social e um novo ativismo sindical que se estendeu por todo o país, marcando um antes e um depois na luta contra o autoritarismo.
O que foi o Pacto Social durante o terceiro governo de Perón?
O Pacto Social foi uma estratégia central do terceiro governo de Perón (1973-1974), liderada pelo ministro José Ber Gelbard. Buscava solucionar a disputa distributiva crônica da economia argentina mediante um acordo entre os grandes representantes corporativos, principalmente a Confederação Geral Econômica (CGE) e a Confederação Geral do Trabalho (CGT). Estabeleceu o congelamento de preços e a suspensão de negociações coletivas por dois anos, em troca de um aumento salarial inicial. Embora tenha tido sucessos iniciais em conter a inflação, desgastou-se rapidamente pelo descumprimento das partes e o recrudescimento da crise econômica e da luta setorial.
Quais foram as principais organizações guerrilheiras da época?
As principais organizações guerrilheiras da época foram Montoneros e o Exército Revolucionário do Povo (ERP). Montoneros, de origem nacionalista católica e tornada peronista, identificou-se com a "pátria socialista" e a "tendência revolucionária" dentro do peronismo. O ERP, vinculado ao trotskista Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PRT), não acreditava na vocação revolucionária do peronismo nem na democracia, retomando a luta armada com a mesma intensidade que contra os militares. Ambas tiveram um papel destacado na violência política e na polarização da sociedade.