Retornar à sala de aula presencial nos convida a refletir profundamente sobre A Filosofia do Ensino e do Saber. A experiência da presencialidade, com a interação dos corpos, revela uma dimensão do ensino que não pode ser replicada pelas telas, especialmente quando as câmeras permanecem desligadas. Este retorno às aulas nos impulsiona a questionar o que frequentemente damos como certo, evitando a complacência e a rotina que a experiência pode gerar.
Questionando o Ensino: Além da Experiência Docente
A autora, com vinte e cinco anos de experiência docente, ressalta a importância de questionar o ensino de forma explícita em cada curso. Para ela, a prática não deve ser dada como certa. Jacques Lacan distinguiu entre o "professor", quem possui as respostas antes que as perguntas sejam formuladas, e o "ensinante", que constrói o ensino de maneira mais aberta, como uma colagem, sem a preocupação de que tudo se encaixe perfeitamente. Essa distinção é chave para entender a dinâmica da sala de aula.
Lacan propôs uma pergunta fundamental para o ensino da psicanálise: "o que a psicanálise nos ensina, como ensiná-lo?". Essa interrogação ressalta o desafio de transmitir um saber que resiste à sistematização e onde o tropeço é ineludível. Sua resposta foi a transmissão de um estilo.
O Estilo: A Essência Involuntária da Transmissão do Saber
O estilo no ensino é um conceito complexo e essencial. Não é algo que se escolha, se projete ou se maneje à vontade. Carece de intencionalidade, não depende das boas ou más intenções, nem mesmo do próprio saber. É involuntário, mas emerge de uma posição onde as pretensões de um "ser" ou de um "ser feito de saber" foram despojadas.
Ensinar implica uma relação com o "buraco no saber" (a falta no saber). Pode-se ensinar a partir de uma posição apegada ao que se sabe, ou a partir de uma disposição a permitir que o próprio saber seja "furado", abrindo espaço para o inesperado. Essa diferença define de que lugar se pretende falar e, em última instância, a qualidade da transmissão.
O Vínculo Imperfeito entre Ensinar e Aprender
Jorge Jinkis aponta que "ensinar ou transmitir, se fosse possível, ocorre de um lado; aprender ou adquirir, assunto dificultado, do outro". Não existe uma correspondência perfeita que ligue ambos os processos; são práticas habitualmente desintrincadas. Elas se cruzam e se encontram, mas não se acomodam reciprocamente. Essa "realização imperfeita" cria um "hiato", uma lacuna pela qual pode emergir algo que não se sabia que se buscava. Lacan o descreve como "um relâmpago para além dos limites do saber".
Além da Universidade: A Pedagogização da Vida e do Discurso
O discurso universitário não se limita às instituições acadêmicas. Há quem o sustente fora delas, e vice-versa, a universidade nem sempre o abriga. Uma característica distintiva do que não é discurso universitário é a pretensão de ditar sempre o mesmo, não em relação ao conteúdo do programa, mas à ideia de que seja o mesmo em sua essência.
Juan Ritvo explica que, quando isso ocorre, já não há transmissão, mas uma mera reprodução de conteúdos. Na transmissão genuína, está em jogo a subjetividade de quem transmite. Se essa implicação for ignorada, o ensino se torna sem compromisso, com enunciados anônimos cuja verdade a ninguém interessa. O estilo, enraizado na voz, no corpo e nos gestos, é uma presença que precipita a produção de saber.
Vivemos em uma época onde se espera que o saber funcione, com uma constante busca por certezas e uma rejeição aos "buracos" próprios e alheios do saber. Jinkis e Kohan observam uma "pedagogização constante da vida". O fenômeno do mansplaining, por exemplo, é interpretado aqui como uma posição enunciativa que demanda saber, legitimando aqueles que estão desesperados para ensinar e abolir as experiências singulares. Lacan disse: "Primeiro pratiquei e depois, um dia, comecei a ensinar".
Roland Barthes: Desaprender para Ensinar com Sabor
Voltar a Roland Barthes é encontrar uma postura contra a solenidade do saber e os professores que não vacilam. Em sua Lição inaugural, Barthes expressa que ensinar não implica apenas transmitir o que não se sabe, mas também "desaprender, de deixar trabalhar a recomposição imprevisível que o esquecimento impõe à sedimentação dos saberes". Ele chama essa experiência de "sapientia: nenhum poder, um pouco de prudente saber e o máximo possível de sabor".
Barthes defendia uma relação de ensino onde quem fala sabe "apenas um pouco mais do que quem escuta", e onde predomina a pesquisa sobre a lição. Isso contrasta com os "tempos de admoestações e imposições" atuais, onde se valoriza mais o que deixa marca através do gesto e do afeto no corpo.
A Maestria no Gesto e o Desejo de Aprender
Juan José Becerra ressalta que o que realmente deixa marca não é tanto o que se diz, mas "o gesto com que se sustentou aquilo que foi dito". A maestria, segundo Becerra, encontra-se em:
- O desejo de entrar em um mundo exclusivo.
- A eletricidade que produz no corpo a sensação de não saber.
- A paixão do que é transmitido.
Esses elementos compõem uma enunciação que vai além da mera instrução, criando uma experiência que afeta profundamente o estudante.
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Perguntas Frequentes sobre a Filosofia do Ensino
Qual a diferença entre um "professor" e um "ensinante" segundo Lacan?
Segundo Lacan, o "professor" é quem tem as respostas antes que as perguntas sejam formuladas, enquanto o "ensinante" constrói o ensino de maneira mais aberta, sem pretender que tudo se encaixe e problematizando constantemente a questão de como ensinar.
Que papel o "estilo" desempenha na transmissão do saber?
O estilo é fundamental e involuntário. Não depende do saber nem da intencionalidade, mas da posição a partir da qual se ensina, permitindo que o próprio saber seja questionado e se aceite a possibilidade do "buraco no saber". É um modo de transmissão que vai além das palavras.
Por que se diz que o ensinar e o aprender são "práticas desintrincadas"?
Jorge Jinkis explica que, embora se cruzem, não há uma correspondência direta entre ensinar e aprender. Ambas as experiências ocorrem de forma imperfeita e não recíproca, criando um "hiato" pelo qual pode passar um saber inesperado.
O que significa a "pedagogização da vida" no contexto atual?
A "pedagogização da vida" refere-se à tendência atual a subsumir todas as experiências em marcos educativos e a uma constante demanda por certezas e saberes funcionais, o que pode levar a uma abolição das experiências singulares e a uma proliferação de pessoas "desesperadas para ensinar".